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Blog Ambiental • Ilustração alegórica mostra uma colmeia flutuando sobre a Terra dividida entre indústria, colapso ambiental e saberes ancestrais

A Colmeia Esquecida e o Antropoceno: quando o vício sustenta a economia e destrói o planeta

Entre Mandeville, o capitalismo contemporâneo e as cosmologias indígenas

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O que acontece quando o motor que sustenta a economia global é o mesmo que empurra o planeta para o colapso?
Essa pergunta atravessa o debate ambiental contemporâneo e exige mais do que respostas técnicas ou relatórios de sustentabilidade. Ela convoca uma reflexão ética, histórica e civilizatória sobre os fundamentos do progresso moderno.

Vivemos um tempo em que crises climáticas, colapsos ecológicos e desigualdades estruturais deixaram de ser exceções. Tornaram-se sintomas de um modelo que opera a partir da aceleração permanente do consumo, da exploração dos territórios e da transformação da vida em mercadoria. É nesse cenário que o ensaio “A Colmeia Esquecida: Vícios, Reciprocidade e o Eco do Antropoceno”, de João Francisco Lobato, ganha densidade e atualidade.

Este artigo propõe uma leitura crítica e ampliada desse ensaio, conectando filosofia política, economia, sustentabilidade e saberes indígenas para compreender por que o Antropoceno não é apenas uma era geológica, mas uma crise de sentido.

Quando vícios privados estruturam o progresso, o preço coletivo pode ser a própria habitabilidade do planeta.


“A prosperidade coletiva nasce não da benevolência, mas da canalização astuta das paixões egoístas.”


A colmeia de Mandeville e as bases do capitalismo moderno

A alegoria da colmeia, formulada por Bernard Mandeville em A Fábula das Abelhas (1714), ocupa um lugar desconfortável na história do pensamento econômico. Ao afirmar que vícios privados produzem benefícios públicos, Mandeville desmonta a ideia de que a moral individual é o alicerce da prosperidade coletiva.

Na sua leitura, orgulho, vaidade, cobiça e desejo não são desvios morais a serem eliminados, mas combustíveis do sistema econômico. Luxo gera trabalho. Conflito sustenta instituições. Ambição move inovação. Quando a virtude absoluta é imposta à colmeia, a economia colapsa.

Essa provocação atravessa os séculos e ecoa diretamente no capitalismo contemporâneo — agora amplificado por plataformas digitais, mercados globais e cadeias produtivas altamente complexas.


A COLMEIA ESQUECIDA: VÍCIOS, RECIPROCIDADE E O ECO DO ANTROPOCENO *

(O texto abaixo é reproduzido integralmente, sem alterações.)

João Francisco Lobato

Em uma era onde as chamas da floresta devoram o pulmão do mundo e os algoritmos tecem teias de desejo infinito, a voz de Bernard Mandeville ecoa como um sussurro provocador, um lembrete de que a civilização que erigimos sobre o orgulho e a vaidade pode ser, ao mesmo tempo, nossa glória e nossa ruína. A obra A Fábula das Abelhas, lançada em 1714 a partir do desdobramento satírico de versões anteriores, ultrapassa o valor de registro histórico; ela funciona como um reflexo sombrio que expõe a estrutura das nossas aspirações. Imagine uma colmeia zumbindo de atividade febril: abelhas obcecadas por luxo, inveja e exibicionismo constroem palácios de cera e ouro, enquanto murmuram contra a corrupção alheia. Quando Júpiter, em um ato de justiça divina, impõe a virtude absoluta — honestidade, frugalidade, renúncia —, o zumbido cessa. A colmeia encolhe, os ofícios perecem, e o que resta é uma existência rústica, pobre e isolada. Mandeville, médico anglo-holandês de espírito irônico, usa essa alegoria para subverter as pretensões morais da Inglaterra pós Restauração: conforme analisa Isleide Fontenelle, as falhas individuais, longe de serem substâncias tóxicas ao corpo social, atuavam como o verdadeiro combustível da coletividade. A vaidade que motiva a elite a consumir tecidos luxuosos garante o sustento dos produtores; os conflitos que abarrotam as cortes mantêm a classe jurídica; e a cobiça que estimula a disputa acaba por fomentar o avanço tecnológico.

Blog Ambiental • Araras com roupas sofisticadas expostas em loja simbolizam o consumo de tecidos luxuosos impulsionado pela vaidade e pelo desejo de distinção social no capitalismo contemporâneo.

Blog Ambiental • O consumo de roupas sofisticadas expressa a vaidade como motor econômico, sustentando cadeias produtivas enquanto intensifica padrões de consumo e pressão ambiental.

Aqui reside o paradoxo central: a prosperidade coletiva nasce não da benevolência, mas da canalização astuta das paixões egoístas. Essa tese, escandalosa em sua época — a ponto de atrair acusações de ateísmo e imoralidade —, antecipa a essência do sistema econômico atual, no qual as pulsões pessoais, sob a máscara da autonomia, alimentam a máquina da produção. No entanto, essa colmeia, outrora um hino ao progresso, revela-se hoje uma armadilha planetária, confrontada pela sabedoria ancestral das florestas amazônicas, onde o “Bem Viver” sussurra uma alternativa: não o acúmulo infinito, mas a reciprocidade com o mundo vivo.

Para compreender a profundidade da provocação mandevilliana, devemos mergulhar em sua antropologia realista, que despoja o ser humano de qualquer ilusão de essência virtuosa. Mandeville não é um niilista; ele é um observador agudo da condição humana como um emaranhado de impulsos — orgulho, vaidade, avareza — que a sociedade, em sua sabedoria política, deve gerir em vez de erradicar. A moralidade, para ele, não é um dom divino ou uma lei natural, mas uma invenção dos “políticos habilidosos”: uma máscara que transforma o egoísmo em coesão social. Ao elogiar a abnegação e condenar o prazer, os governantes domesticam as massas, criando uma ordem onde o vício se disfarça de virtude.

Essa dicotomia entre moralidade autêntica e moralismo hipócrita é o coração da fábula. Considere o puritanismo inglês do século XVII, herdeiro da Revolução de Cromwell, que pregava a austeridade enquanto a nação se enriquecia com o comércio colonial e o luxo importado. Mandeville ri dessa contradição: se todos adotassem a pureza ascética, a economia colapsaria, pois sem vaidade não há demanda por joias, sem fraude não há juízes, sem luxúria não há artesãos de sedas. Sua visão da liberdade é igualmente paradoxal — não a autonomia kantiana do dever, mas a liberdade de perseguir o interesse próprio, que, ironicamente, gera riqueza coletiva. Essa liberdade, no entanto, é uma ilusão tecida pela interdependência: o indivíduo se crê soberano, mas é marionete de suas paixões e das estruturas sociais que as exploram. Em um mundo onde o Estado, em vez de moralizar, deve orquestrar esses vícios para o bem comum,

Mandeville planta as sementes do laissez-faire, ecoando em Adam Smith como a “mão invisível” que transforma o autointeresse em harmonia social. Mas onde Smith busca redimir o egoísmo com uma simpatia moral, Mandeville permanece cínico: a prosperidade é um subproduto acidental da depravação, não uma providência ética.

Esse cinismo filosófico de Mandeville, longe de ser um relicto do Iluminismo inicial, irradia-se através dos séculos, iluminando as fissuras do capitalismo contemporâneo com uma clareza incômoda. No coração da economia digital, por exemplo, a vaidade que outrora adornava salões agora anima feeds intermináveis de influenciadores, onde a performance de uma vida perfeita — viagens exóticas, corpos esculpidos, rotinas de luxo “sustentável” — captura a atenção como uma teia de aranha tecida por algoritmos. Aqui, o vício privado da busca por validação se transmuta em benefício público: likes geram dados, dados alimentam anúncios, anúncios sustentam impérios tecnológicos. O influenciador, eco da abelha vaidosa, exibe não apenas bens, mas uma identidade mercantilizada, onde a autenticidade é o novo luxo. Seus seguidores, impulsionados pela inveja sutil, consomem não só produtos, mas a ilusão de proximidade com esse ideal, perpetuando um ciclo de desejo insaciável. Mandeville aplaudiria essa eficiência: o orgulho individual impulsiona o comércio global, criando empregos em data centers e agências de marketing.

No entanto, essa aplicação moderna revela as sombras da fábula: a economia da atenção não enriquece apenas; ela esgota, transformando sujeitos em commodities efêmeras, onde a privacidade é o primeiro vício sacrificado no altar do engajamento. Paralelamente, nas corporações que dominam o discurso ESG — Ambiental, Social e Governança —, vemos a hipocrisia mandevilliana em sua forma mais polida. Gigantes do varejo e da energia prometem sustentabilidade enquanto extraem recursos com voracidade, usando relatórios verdes como máscaras para o luxo predatório. O greenwashing, essa farsa da virtude, é a herdeira direta da “política da hipocrisia”: o vício do lucro máximo se disfarça de benevolência coletiva, gerando benefícios públicos ilusórios enquanto acelera a crise climática. Mandeville, com seu olhar satírico, nos forçaria a questionar: se a pureza moral leva à ruína econômica, o que dizer da impureza que leva à ruína planetária?

É nesse ponto que a fábula de Mandeville, outrora um hino à engenhosidade humana, colide com a sabedoria ancestral das florestas amazônicas, revelando não apenas divergências, mas uma crítica inspiradora à própria noção de progresso. Nas ontologias indígenas, exemplificadas pelo “Bem Viver”, o mundo não é um palco para a exibição de vícios, mas um tecido vivo de relações recíprocas. Aqui, a economia não é de suficiência por escassez, mas por abundância relacional: a floresta não é recurso a ser explorado, mas parente a ser honrado. Davi Kopenawa, xamã Yanomami, em A Queda do Céu, descreve os brancos como o “povo da mercadoria”, obcecados por um brilho ilusório que cega para os espíritos da terra. Para Kopenawa, o desejo mandevilliano — essa vaidade que constrói cidades — é a “fumaça do metal”, uma epidemia que adoece o cosmos, liberando venenos ao cavar a pele da mãe-terra em busca de ouro e petróleo.

A colmeia de Mandeville, com sua interdependência viciosa, encontra um eco invertido na cosmopolítica Yanomami: ambos reconhecem que o indivíduo é inseparável da coletividade, mas onde Mandeville vê benefício no egoísmo acelerado, Kopenawa vê colapso no esquecimento da diplomacia com o não-humano. A caça Yanomami, por exemplo, não é extração predatória, mas um ritual de negociação com os animais, onde o caçador deve oferecer tabaco aos espíritos para equilibrar o ciclo vital. Essa reciprocidade subverte a lógica de Mandeville: o “vício” do acúmulo é o verdadeiro pecado, pois rompe o equilíbrio, enquanto a frugalidade ritualizada gera abundância sustentável.

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Imagem: AP / Eraldo Peres

Ailton Krenak, pensador Krenak e ativista, aprofunda essa crítica com uma sensibilidade que mescla ecologia e poética, desafiando o utilitarismo subjacente à fábula. Em obras como Ideias para Adiar o Fim do Mundo, Krenak proclama que “a vida não é útil” — uma declaração que desmonta o cerne mandevilliano. Para Mandeville, a utilidade é o critério supremo: um vício é virtuoso se gera emprego e riqueza. Krenak, porém, vê nessa métrica uma armadilha colonial, uma desumanização que transforma povos em recursos e a Terra em mercadoria. O “Bem Viver”, para ele, é um fruír poético: tempo para dançar, cantar e sonhar com o rio, sem a tirania da produtividade.

A colmeia mandevilliana, com sua febre de construção, é o oposto do “corpo da floresta” que Krenak evoca — um organismo onde o humano é mero galho, não o centro. Considere o manejo da castanha-do-pará pelos Kayapó: não uma exploração para maximizar lucros, mas uma colheita ritmada que preserva a árvore como entidade viva, gerando bem-estar coletivo sem o esgotamento. Krenak e Kopenawa, assim, dialogam com Mandeville não como antagonistas primitivos, mas como profetas de uma ontologia alternativa: o vício do Ocidente não constrói impérios eternos, mas acelera o “fim do mundo” — não apocalíptico, mas o colapso de mundos plurais, onde línguas indígenas e ecossistemas se extinguem sob o peso do consumo.

Essa tensão ontológica ilumina o Antropoceno como o clímax trágico da fábula mandevilliana. O Antropoceno é o legado material dos vícios privados: a queima de carvão que iluminou a Revolução Industrial, o desejo por mobilidade que pavimentou rodovias globais, a vaidade por status que impulsiona o fast fashion e o desmatamento. Mandeville, se vivo, talvez visse nisso o triunfo de sua colmeia: o egoísmo individual escalado para o planeta, gerando benefícios públicos como vacinas, internet e expectativa de vida estendida. Mas o preço é o colapso da biosfera, onde o “benefício” se revela uma ilusão termodinâmica. A crítica indígena, encarnada em Kopenawa e Krenak, oferece o contraponto vital: o Antropoceno não é o triunfo da humanidade, mas sua alienação da Terra.

Kopenawa descreve o “céu que cai” como a retaliação dos espíritos enfurecidos pela ganância; Krenak, como o “adiamento” possível através da reconexão com o sagrado. Em Belo Monte ou Mariana, vemos essa colisão: barragens e minas, frutos da lógica mandevilliana de extração para o “progresso”, destroem rios e comunidades, revelando que o vício privado das elites globais gera não benefícios, mas deslocamentos e toxinas. A reciprocidade amazônica, por outro lado, propõe uma economia de limites: o manejo Yanomami mostra que a sustentabilidade emerge da moderação, não da aceleração. Se Mandeville nos ensina a gerir paixões para a riqueza, Krenak e Kopenawa nos ensinam a ritualizá-las para a sobrevivência — uma poética da contenção onde o desejo é domado pelo respeito ao ciclo vital.

Como observa Isleide Fontenelle, essa engrenagem de paixões que sustenta o mercado agora colide com a finitude da Terra. Expandindo essa reflexão, consideremos as implicações para o neoliberalismo moderno, herdeiro direto de Mandeville através de Friedrich Hayek. Hayek elogia a “ordem espontânea” do mercado como um cosmos auto-organizado, onde o interesse próprio coordena o conhecimento disperso mais eficientemente que qualquer plano central. Essa visão ecoa a colmeia: milhões de abelhas vaidosas, sem coordenação consciente, constroem maravilhas. No entanto, no Antropoceno, essa espontaneidade revela-se patogênica: os preços que sinalizam eficiência ignoram externalidades como emissões de carbono ou perda de solos, perpetuando o extrativismo.

Kopenawa, com sua denúncia da “fumaça do metal”, expõe essa falha: o mercado não vê os espíritos que mantêm o equilíbrio, tratando a floresta como externalidade a ser internalizada via créditos de carbono — uma farsa mandevilliana onde o vício ambiental é “compensado” por mais comércio. Krenak, por sua vez, subverte o individualismo ao propor subjetividades plurais: o humano não é átomo egoísta, mas nó em uma rede de relações, onde o “eu” só existe no “nós” com o rio e a montanha. Essa cosmopolítica indígena desafia o neoliberalismo ao questionar sua premissa antropológica: se o desejo é infinito, o planeta finito colapsa; se o desejo é relacional e limitado, surge espaço para o equilíbrio.

Essa dialética entre vício produtivo e reciprocidade sustentável não é abstrata; ela pulsa nas veias do presente, desde os salões de Davos até as roças Yanomami. No Fórum Econômico Mundial, bilionários debatem “capitalismo consciente” — uma tentativa de humanizar a colmeia mandevilliana com métricas ESG que prometem alinhar lucro com planeta. Mas, como critica Krenak, isso é mera cosmética: o desejo de acumular permanece intocado, e o “bem-estar” é quantificado em dólares, não em harmonia vital. Em contraste, o Sumaq Kawsay dos povos andinos reconhece a “Pachamama” como sujeito de direitos, invertendo a lógica: a economia serve à vida, não o contrário.

Exemplos concretos abundam: os Ashaninka no Peru manejam a ayahuasca não como commodity narcótica, mas como ponte ritual para o equilíbrio comunitário, gerando renda sem esgotar a floresta. Kopenawa, em sua luta contra garimpeiros ilegais, personifica essa resistência: o mercúrio da mineração, subproduto do luxo global, envenena rios e corpos, ecoando a “fumaça” que Mandeville ignorava em sua colmeia europeia. Esses pensadores indígenas não romantizam o passado; eles oferecem uma tecnologia ontológica para o futuro — uma poética da moderação onde o desejo é canalizado para o florescimento coletivo, não para o colapso.

No cerne dessa tensão reside uma questão ética profunda: pode a colmeia mandevilliana evoluir para uma floresta recíproca, ou estamos condenados à queda do céu? Mandeville nos alerta para o perigo da virtude absoluta — uma estagnação que ignora a complexidade humana. Mas Krenak e Kopenawa nos advertem para o perigo do vício absoluto — uma aceleração que ignora a complexidadeplanetária. A resposta, talvez, esteja na hibridização: integrar a eficiência da ordem espontânea com a sabedoria da suficiência. Imagine economias onde o PIB é medido não por crescimento, mas por “índice de reciprocidade” — tempo para relações humanas e não-humanas, redução de desigualdades, preservação de biomas.

Projetos como o Parque Indígena do Xingu, defendido por Krenak, ilustram isso: territórios demarcados não como reservas, mas como centros de manejo sustentável, onde o turismo ecológico e a agrofloresta geram renda sem predar. No entanto, o obstáculo é o mesmo que Mandeville identificava: o moralismo hipócrita das elites, que clamam por sustentabilidade enquanto subsidiam fósseis. Kopenawa, com sua voz profética, nos lembra que o céu não cai por acaso; ele desaba sob o peso da cobiça não contida.

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Imagem: G. Miranda / Funai / Survival

Essa síntese inspiradora — vícios como sementes de ruína, reciprocidade como raiz de renascimento — é um convite ao leitor a uma reflexão pessoal. Em um mundo de telas que alimentam vaidades efêmeras, onde o desejo por mais nos afasta do essencial, a fábula de Mandeville e as vozes amazônicas nos chamam a uma pausa contemplativa. Talvez a verdadeira liberdade não seja perseguir o luxo infinito, mas dançar com o rio, como Krenak sugere, reconhecendo que somos, afinal, parte da colmeia viva da Terra. Só assim, adiando o fim que o Antropoceno profetiza, poderemos tecer um futuro onde o zumbido da vida não cesse, mas harmonize com o sussurro das folhas.

NOTA DE RODAPÉ: Esta reflexão brota do solo fértil cultivado pela generosidade intelectual e pela agudeza crítica da Profa. Dra. Isleide Arruda Fontenelle, cujas investigações fundamentais em seu livro Cultura do Consumo (2017) e em seu artigo Dilemas éticos na cultura do consumo (2023) foram bússolas essenciais para navegar entre as paixões mandevillianas e os abismos do Antropoceno aqui delineados. A ela, que transformou a sala de aula em um território onde o ato de pensar é um exercício de sensibilidade e compromisso ético com a vida, dedico esta singela homenagem. (* Publicado originalmente no portal Uruá-Tapera.)

Antropoceno: quando o benefício público se torna colapso planetário

A força do ensaio de Lobato está em revelar que o Antropoceno é, na prática, a escala planetária da colmeia mandevilliana. O que antes funcionava como engrenagem local de prosperidade agora opera como sistema global de exaustão.

A economia da atenção, o consumo simbólico, o greenwashing corporativo e a financeirização da natureza mostram que o vício deixou de ser um efeito colateral. Tornou-se método.

Nesse ponto, o texto dialoga de forma contundente com pensadores indígenas como Ailton Krenak e Davi Kopenawa, que oferecem não uma crítica moral, mas uma outra ontologia: a vida como relação, não como recurso.


Reciprocidade, Bem Viver e limites planetários

A noção de Bem Viver, presente em diversas cosmologias indígenas, confronta diretamente a lógica de crescimento infinito. Ela propõe:

  • limites ecológicos claros;
  • reciprocidade entre humano e não-humano;
  • economia como meio, não como fim;
  • abundância relacional, não acumulação material.

Essa visão aparece no texto como contraponto estrutural à colmeia de Mandeville. Onde o capitalismo vê eficiência, os povos da floresta veem ruptura de pactos vitais.

Jovem indígena Ashaninka inspeciona mudas de cedro para reflorestamento na aldeia Apiwtxa, no Acre, em ação de cuidado territorial e reciprocidade ambiental — Blog Ambiental.

Blog Ambiental • Jovem Ashaninka avalia mudas de cedro na aldeia Apiwtxa, no Acre, em prática de reflorestamento que expressa a lógica do Bem Viver e da reciprocidade com a natureza.
Imagem: AP Photo / Jorge Saenz

O limite invisível do desejo

Se o funcionamento da economia global depende da expansão permanente do desejo, enquanto os sistemas naturais operam sob limites físicos inegociáveis, a ruptura deixa de ser uma hipótese distante e passa a ser uma condição estrutural. O ponto de tensão não está apenas na escassez de recursos, mas na incapacidade cultural de reconhecer que crescimento ilimitado, quando naturalizado, converte-se em risco sistêmico.

O ensaio não entrega respostas confortáveis porque o impasse que ele revela não é técnico, é civilizatório. Ao longo das últimas décadas, iniciativas de comunicação e governança tentaram suavizar esse conflito — muitas vezes com êxito estético, mas pouco efeito material, como discutido em marketing verde em crise. Persistir nesse caminho significa aceitar o colapso como externalidade aceitável do progresso, em vez de questionar o próprio desenho do sistema que o produz.


Conclusão: entre a colmeia e o limite planetário

A Colmeia Esquecida ultrapassa o campo da filosofia econômica para operar como um espelho incômodo da contemporaneidade. Ao articular Bernard Mandeville, capitalismo digital, métricas ESG, cosmologias indígenas e Antropoceno, o texto explicita que a crise ambiental não é apenas um problema de gestão ou tecnologia — trata-se de uma crise moral, política e ontológica profundamente enraizada.

Entre o vício absoluto, celebrado como motor econômico, e a virtude ingênua, incapaz de sustentar sociedades complexas, emerge a necessidade de uma economia dos limites. Uma economia capaz de reconciliar técnica e ética, produtividade e cuidado, eficiência e continuidade da vida. Essa transição exige mais do que inovação tecnológica; demanda revisão de valores, como já debatido em economia circular x modelo linear e em reflexões sobre o futuro sustentável que não será confortável.

Não se trata de negar o desejo humano — força histórica incontornável —, mas de reorientá-lo para formas de prosperidade compatíveis com os limites planetários. Caso contrário, a colmeia continuará zumbindo até que o próprio suporte da vida se torne inviável, confirmando que o Antropoceno não é apenas uma era geológica, mas o retrato de uma escolha coletiva mal resolvida.

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Perguntas Frequentes sobre A Colmeia Esquecida e o Antropoceno

1. O que Bernard Mandeville propõe em A Fábula das Abelhas e por que essa obra ainda é relevante?

Publicada em 1714, A Fábula das Abelhas sustenta a tese provocadora de que vícios privados — como vaidade, ambição e desejo por distinção — podem gerar benefícios públicos ao movimentar a economia. Mandeville rompe com a ideia moralista de que a prosperidade coletiva nasce da virtude individual. Sua obra é relevante porque antecipa a lógica do capitalismo moderno, no qual o interesse próprio, e não a ética, estrutura os sistemas produtivos e de consumo.

2. De que forma o pensamento de Mandeville ajuda a compreender o capitalismo contemporâneo?

O capitalismo atual opera exatamente como a colmeia de Mandeville: desejos individuais são estimulados, amplificados e organizados para sustentar mercados globais. A economia digital, o consumo simbólico e a financeirização da vida transformam vaidade, ansiedade e busca por reconhecimento em ativos econômicos. O ensaio evidencia que o sistema não corrige esses impulsos — ele depende deles — revelando uma continuidade histórica entre a alegoria do século XVIII e o capitalismo de plataforma do século XXI.

3. O que o Antropoceno revela sobre os limites desse modelo econômico?

No debate apresentado, o Antropoceno aparece como a consequência material e planetária da lógica mandevilliana levada ao extremo. Aquilo que antes gerava prosperidade localizada agora produz colapso sistêmico: crise climática, perda de biodiversidade, contaminação dos territórios e ruptura dos ciclos naturais. O Antropoceno expõe que os “benefícios públicos” do crescimento econômico escondem custos ambientais irreversíveis, ignorados pelas métricas tradicionais de progresso.

4. Qual é a crítica dos povos indígenas à lógica do progresso baseada no consumo?

As cosmologias indígenas rejeitam a ideia de que a natureza seja um recurso passível de exploração infinita. Em vez disso, defendem uma relação de reciprocidade, onde rios, florestas e animais são sujeitos de relação, não objetos econômicos. Essa visão confronta diretamente o modelo ocidental ao afirmar que o desequilíbrio ambiental é resultado de uma ruptura ética e espiritual, não apenas de falhas técnicas. O texto mostra que essa crítica não é simbólica, mas profundamente política e ontológica.

5. O ensaio aponta caminhos possíveis além do modelo atual de desenvolvimento?

Sim, mas sem soluções simplistas. O texto sugere a necessidade de uma reorientação profunda do conceito de progresso, incorporando limites ecológicos, suficiência material e responsabilidade coletiva. Em vez de crescimento infinito, propõe-se uma economia orientada pela continuidade da vida. Essa alternativa não elimina o desejo humano, mas o reinsere em uma lógica de moderação, reciprocidade e coexistência — condição essencial para enfrentar a crise civilizatória do Antropoceno.

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2 Comentários

Marketing Verde em Crise: Comunicação Ambiental desacreditada 24/01/2026 - 10:02

[…] Assim como ocorre na economia, promessas em excesso desvalorizam o discurso. Nos últimos anos, muitas marcas passaram a anunciar metas ambientais ambiciosas sem apresentar o caminho para alcançá-las. Neutralidade de carbono, impacto positivo e regeneração tornaram-se expressões recorrentes, porém pouco explicadas. […]

Resposta
O Futuro Sustentável Não Será Confortável 26/01/2026 - 11:33

[…] fato, existe consenso científico sobre a necessidade de mudança de hábitos. O que não existe é disposição coletiva para encarar o significado real dessa afirmação. […]

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