O que acontece quando o motor que sustenta a economia global é o mesmo que empurra o planeta para o colapso?
Essa pergunta atravessa o debate ambiental contemporâneo e exige mais do que respostas técnicas ou relatórios de sustentabilidade. Ela convoca uma reflexão ética, histórica e civilizatória sobre os fundamentos do progresso moderno.
Vivemos um tempo em que crises climáticas, colapsos ecológicos e desigualdades estruturais deixaram de ser exceções. Tornaram-se sintomas de um modelo que opera a partir da aceleração permanente do consumo, da exploração dos territórios e da transformação da vida em mercadoria. É nesse cenário que o ensaio “A Colmeia Esquecida: Vícios, Reciprocidade e o Eco do Antropoceno”, de João Francisco Lobato, ganha densidade e atualidade.
Este artigo propõe uma leitura crítica e ampliada desse ensaio, conectando filosofia política, economia, sustentabilidade e saberes indígenas para compreender por que o Antropoceno não é apenas uma era geológica, mas uma crise de sentido.
Quando vícios privados estruturam o progresso, o preço coletivo pode ser a própria habitabilidade do planeta.
“A prosperidade coletiva nasce não da benevolência, mas da canalização astuta das paixões egoístas.”
A colmeia de Mandeville e as bases do capitalismo moderno
A alegoria da colmeia, formulada por Bernard Mandeville em A Fábula das Abelhas (1714), ocupa um lugar desconfortável na história do pensamento econômico. Ao afirmar que vícios privados produzem benefícios públicos, Mandeville desmonta a ideia de que a moral individual é o alicerce da prosperidade coletiva.
Na sua leitura, orgulho, vaidade, cobiça e desejo não são desvios morais a serem eliminados, mas combustíveis do sistema econômico. Luxo gera trabalho. Conflito sustenta instituições. Ambição move inovação. Quando a virtude absoluta é imposta à colmeia, a economia colapsa.
Essa provocação atravessa os séculos e ecoa diretamente no capitalismo contemporâneo — agora amplificado por plataformas digitais, mercados globais e cadeias produtivas altamente complexas.
A COLMEIA ESQUECIDA: VÍCIOS, RECIPROCIDADE E O ECO DO ANTROPOCENO *
(O texto abaixo é reproduzido integralmente, sem alterações.)
João Francisco Lobato
Em uma era onde as chamas da floresta devoram o pulmão do mundo e os algoritmos tecem teias de desejo infinito, a voz de Bernard Mandeville ecoa como um sussurro provocador, um lembrete de que a civilização que erigimos sobre o orgulho e a vaidade pode ser, ao mesmo tempo, nossa glória e nossa ruína. A obra A Fábula das Abelhas, lançada em 1714 a partir do desdobramento satírico de versões anteriores, ultrapassa o valor de registro histórico; ela funciona como um reflexo sombrio que expõe a estrutura das nossas aspirações. Imagine uma colmeia zumbindo de atividade febril: abelhas obcecadas por luxo, inveja e exibicionismo constroem palácios de cera e ouro, enquanto murmuram contra a corrupção alheia. Quando Júpiter, em um ato de justiça divina, impõe a virtude absoluta — honestidade, frugalidade, renúncia —, o zumbido cessa. A colmeia encolhe, os ofícios perecem, e o que resta é uma existência rústica, pobre e isolada. Mandeville, médico anglo-holandês de espírito irônico, usa essa alegoria para subverter as pretensões morais da Inglaterra pós Restauração: conforme analisa Isleide Fontenelle, as falhas individuais, longe de serem substâncias tóxicas ao corpo social, atuavam como o verdadeiro combustível da coletividade. A vaidade que motiva a elite a consumir tecidos luxuosos garante o sustento dos produtores; os conflitos que abarrotam as cortes mantêm a classe jurídica; e a cobiça que estimula a disputa acaba por fomentar o avanço tecnológico.

Blog Ambiental • O consumo de roupas sofisticadas expressa a vaidade como motor econômico, sustentando cadeias produtivas enquanto intensifica padrões de consumo e pressão ambiental.
Aqui reside o paradoxo central: a prosperidade coletiva nasce não da benevolência, mas da canalização astuta das paixões egoístas. Essa tese, escandalosa em sua época — a ponto de atrair acusações de ateísmo e imoralidade —, antecipa a essência do sistema econômico atual, no qual as pulsões pessoais, sob a máscara da autonomia, alimentam a máquina da produção. No entanto, essa colmeia, outrora um hino ao progresso, revela-se hoje uma armadilha planetária, confrontada pela sabedoria ancestral das florestas amazônicas, onde o “Bem Viver” sussurra uma alternativa: não o acúmulo infinito, mas a reciprocidade com o mundo vivo.
Para compreender a profundidade da provocação mandevilliana, devemos mergulhar em sua antropologia realista, que despoja o ser humano de qualquer ilusão de essência virtuosa. Mandeville não é um niilista; ele é um observador agudo da condição humana como um emaranhado de impulsos — orgulho, vaidade, avareza — que a sociedade, em sua sabedoria política, deve gerir em vez de erradicar. A moralidade, para ele, não é um dom divino ou uma lei natural, mas uma invenção dos “políticos habilidosos”: uma máscara que transforma o egoísmo em coesão social. Ao elogiar a abnegação e condenar o prazer, os governantes domesticam as massas, criando uma ordem onde o vício se disfarça de virtude.
Essa dicotomia entre moralidade autêntica e moralismo hipócrita é o coração da fábula. Considere o puritanismo inglês do século XVII, herdeiro da Revolução de Cromwell, que pregava a austeridade enquanto a nação se enriquecia com o comércio colonial e o luxo importado. Mandeville ri dessa contradição: se todos adotassem a pureza ascética, a economia colapsaria, pois sem vaidade não há demanda por joias, sem fraude não há juízes, sem luxúria não há artesãos de sedas. Sua visão da liberdade é igualmente paradoxal — não a autonomia kantiana do dever, mas a liberdade de perseguir o interesse próprio, que, ironicamente, gera riqueza coletiva. Essa liberdade, no entanto, é uma ilusão tecida pela interdependência: o indivíduo se crê soberano, mas é marionete de suas paixões e das estruturas sociais que as exploram. Em um mundo onde o Estado, em vez de moralizar, deve orquestrar esses vícios para o bem comum,
Mandeville planta as sementes do laissez-faire, ecoando em Adam Smith como a “mão invisível” que transforma o autointeresse em harmonia social. Mas onde Smith busca redimir o egoísmo com uma simpatia moral, Mandeville permanece cínico: a prosperidade é um subproduto acidental da depravação, não uma providência ética.
Esse cinismo filosófico de Mandeville, longe de ser um relicto do Iluminismo inicial, irradia-se através dos séculos, iluminando as fissuras do capitalismo contemporâneo com uma clareza incômoda. No coração da economia digital, por exemplo, a vaidade que outrora adornava salões agora anima feeds intermináveis de influenciadores, onde a performance de uma vida perfeita — viagens exóticas, corpos esculpidos, rotinas de luxo “sustentável” — captura a atenção como uma teia de aranha tecida por algoritmos. Aqui, o vício privado da busca por validação se transmuta em benefício público: likes geram dados, dados alimentam anúncios, anúncios sustentam impérios tecnológicos. O influenciador, eco da abelha vaidosa, exibe não apenas bens, mas uma identidade mercantilizada, onde a autenticidade é o novo luxo. Seus seguidores, impulsionados pela inveja sutil, consomem não só produtos, mas a ilusão de proximidade com esse ideal, perpetuando um ciclo de desejo insaciável. Mandeville aplaudiria essa eficiência: o orgulho individual impulsiona o comércio global, criando empregos em data centers e agências de marketing.
No entanto, essa aplicação moderna revela as sombras da fábula: a economia da atenção não enriquece apenas; ela esgota, transformando sujeitos em commodities efêmeras, onde a privacidade é o primeiro vício sacrificado no altar do engajamento. Paralelamente, nas corporações que dominam o discurso ESG — Ambiental, Social e Governança —, vemos a hipocrisia mandevilliana em sua forma mais polida. Gigantes do varejo e da energia prometem sustentabilidade enquanto extraem recursos com voracidade, usando relatórios verdes como máscaras para o luxo predatório. O greenwashing, essa farsa da virtude, é a herdeira direta da “política da hipocrisia”: o vício do lucro máximo se disfarça de benevolência coletiva, gerando benefícios públicos ilusórios enquanto acelera a crise climática. Mandeville, com seu olhar satírico, nos forçaria a questionar: se a pureza moral leva à ruína econômica, o que dizer da impureza que leva à ruína planetária?
É nesse ponto que a fábula de Mandeville, outrora um hino à engenhosidade humana, colide com a sabedoria ancestral das florestas amazônicas, revelando não apenas divergências, mas uma crítica inspiradora à própria noção de progresso. Nas ontologias indígenas, exemplificadas pelo “Bem Viver”, o mundo não é um palco para a exibição de vícios, mas um tecido vivo de relações recíprocas. Aqui, a economia não é de suficiência por escassez, mas por abundância relacional: a floresta não é recurso a ser explorado, mas parente a ser honrado. Davi Kopenawa, xamã Yanomami, em A Queda do Céu, descreve os brancos como o “povo da mercadoria”, obcecados por um brilho ilusório que cega para os espíritos da terra. Para Kopenawa, o desejo mandevilliano — essa vaidade que constrói cidades — é a “fumaça do metal”, uma epidemia que adoece o cosmos, liberando venenos ao cavar a pele da mãe-terra em busca de ouro e petróleo.
A colmeia de Mandeville, com sua interdependência viciosa, encontra um eco invertido na cosmopolítica Yanomami: ambos reconhecem que o indivíduo é inseparável da coletividade, mas onde Mandeville vê benefício no egoísmo acelerado, Kopenawa vê colapso no esquecimento da diplomacia com o não-humano. A caça Yanomami, por exemplo, não é extração predatória, mas um ritual de negociação com os animais, onde o caçador deve oferecer tabaco aos espíritos para equilibrar o ciclo vital. Essa reciprocidade subverte a lógica de Mandeville: o “vício” do acúmulo é o verdadeiro pecado, pois rompe o equilíbrio, enquanto a frugalidade ritualizada gera abundância sustentável.

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Ailton Krenak, pensador Krenak e ativista, aprofunda essa crítica com uma sensibilidade que mescla ecologia e poética, desafiando o utilitarismo subjacente à fábula. Em obras como Ideias para Adiar o Fim do Mundo, Krenak proclama que “a vida não é útil” — uma declaração que desmonta o cerne mandevilliano. Para Mandeville, a utilidade é o critério supremo: um vício é virtuoso se gera emprego e riqueza. Krenak, porém, vê nessa métrica uma armadilha colonial, uma desumanização que transforma povos em recursos e a Terra em mercadoria. O “Bem Viver”, para ele, é um fruír poético: tempo para dançar, cantar e sonhar com o rio, sem a tirania da produtividade.
A colmeia mandevilliana, com sua febre de construção, é o oposto do “corpo da floresta” que Krenak evoca — um organismo onde o humano é mero galho, não o centro. Considere o manejo da castanha-do-pará pelos Kayapó: não uma exploração para maximizar lucros, mas uma colheita ritmada que preserva a árvore como entidade viva, gerando bem-estar coletivo sem o esgotamento. Krenak e Kopenawa, assim, dialogam com Mandeville não como antagonistas primitivos, mas como profetas de uma ontologia alternativa: o vício do Ocidente não constrói impérios eternos, mas acelera o “fim do mundo” — não apocalíptico, mas o colapso de mundos plurais, onde línguas indígenas e ecossistemas se extinguem sob o peso do consumo.
Essa tensão ontológica ilumina o Antropoceno como o clímax trágico da fábula mandevilliana. O Antropoceno é o legado material dos vícios privados: a queima de carvão que iluminou a Revolução Industrial, o desejo por mobilidade que pavimentou rodovias globais, a vaidade por status que impulsiona o fast fashion e o desmatamento. Mandeville, se vivo, talvez visse nisso o triunfo de sua colmeia: o egoísmo individual escalado para o planeta, gerando benefícios públicos como vacinas, internet e expectativa de vida estendida. Mas o preço é o colapso da biosfera, onde o “benefício” se revela uma ilusão termodinâmica. A crítica indígena, encarnada em Kopenawa e Krenak, oferece o contraponto vital: o Antropoceno não é o triunfo da humanidade, mas sua alienação da Terra.
Kopenawa descreve o “céu que cai” como a retaliação dos espíritos enfurecidos pela ganância; Krenak, como o “adiamento” possível através da reconexão com o sagrado. Em Belo Monte ou Mariana, vemos essa colisão: barragens e minas, frutos da lógica mandevilliana de extração para o “progresso”, destroem rios e comunidades, revelando que o vício privado das elites globais gera não benefícios, mas deslocamentos e toxinas. A reciprocidade amazônica, por outro lado, propõe uma economia de limites: o manejo Yanomami mostra que a sustentabilidade emerge da moderação, não da aceleração. Se Mandeville nos ensina a gerir paixões para a riqueza, Krenak e Kopenawa nos ensinam a ritualizá-las para a sobrevivência — uma poética da contenção onde o desejo é domado pelo respeito ao ciclo vital.
Como observa Isleide Fontenelle, essa engrenagem de paixões que sustenta o mercado agora colide com a finitude da Terra. Expandindo essa reflexão, consideremos as implicações para o neoliberalismo moderno, herdeiro direto de Mandeville através de Friedrich Hayek. Hayek elogia a “ordem espontânea” do mercado como um cosmos auto-organizado, onde o interesse próprio coordena o conhecimento disperso mais eficientemente que qualquer plano central. Essa visão ecoa a colmeia: milhões de abelhas vaidosas, sem coordenação consciente, constroem maravilhas. No entanto, no Antropoceno, essa espontaneidade revela-se patogênica: os preços que sinalizam eficiência ignoram externalidades como emissões de carbono ou perda de solos, perpetuando o extrativismo.
Kopenawa, com sua denúncia da “fumaça do metal”, expõe essa falha: o mercado não vê os espíritos que mantêm o equilíbrio, tratando a floresta como externalidade a ser internalizada via créditos de carbono — uma farsa mandevilliana onde o vício ambiental é “compensado” por mais comércio. Krenak, por sua vez, subverte o individualismo ao propor subjetividades plurais: o humano não é átomo egoísta, mas nó em uma rede de relações, onde o “eu” só existe no “nós” com o rio e a montanha. Essa cosmopolítica indígena desafia o neoliberalismo ao questionar sua premissa antropológica: se o desejo é infinito, o planeta finito colapsa; se o desejo é relacional e limitado, surge espaço para o equilíbrio.
Essa dialética entre vício produtivo e reciprocidade sustentável não é abstrata; ela pulsa nas veias do presente, desde os salões de Davos até as roças Yanomami. No Fórum Econômico Mundial, bilionários debatem “capitalismo consciente” — uma tentativa de humanizar a colmeia mandevilliana com métricas ESG que prometem alinhar lucro com planeta. Mas, como critica Krenak, isso é mera cosmética: o desejo de acumular permanece intocado, e o “bem-estar” é quantificado em dólares, não em harmonia vital. Em contraste, o Sumaq Kawsay dos povos andinos reconhece a “Pachamama” como sujeito de direitos, invertendo a lógica: a economia serve à vida, não o contrário.
Exemplos concretos abundam: os Ashaninka no Peru manejam a ayahuasca não como commodity narcótica, mas como ponte ritual para o equilíbrio comunitário, gerando renda sem esgotar a floresta. Kopenawa, em sua luta contra garimpeiros ilegais, personifica essa resistência: o mercúrio da mineração, subproduto do luxo global, envenena rios e corpos, ecoando a “fumaça” que Mandeville ignorava em sua colmeia europeia. Esses pensadores indígenas não romantizam o passado; eles oferecem uma tecnologia ontológica para o futuro — uma poética da moderação onde o desejo é canalizado para o florescimento coletivo, não para o colapso.
No cerne dessa tensão reside uma questão ética profunda: pode a colmeia mandevilliana evoluir para uma floresta recíproca, ou estamos condenados à queda do céu? Mandeville nos alerta para o perigo da virtude absoluta — uma estagnação que ignora a complexidade humana. Mas Krenak e Kopenawa nos advertem para o perigo do vício absoluto — uma aceleração que ignora a complexidadeplanetária. A resposta, talvez, esteja na hibridização: integrar a eficiência da ordem espontânea com a sabedoria da suficiência. Imagine economias onde o PIB é medido não por crescimento, mas por “índice de reciprocidade” — tempo para relações humanas e não-humanas, redução de desigualdades, preservação de biomas.
Projetos como o Parque Indígena do Xingu, defendido por Krenak, ilustram isso: territórios demarcados não como reservas, mas como centros de manejo sustentável, onde o turismo ecológico e a agrofloresta geram renda sem predar. No entanto, o obstáculo é o mesmo que Mandeville identificava: o moralismo hipócrita das elites, que clamam por sustentabilidade enquanto subsidiam fósseis. Kopenawa, com sua voz profética, nos lembra que o céu não cai por acaso; ele desaba sob o peso da cobiça não contida.

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Essa síntese inspiradora — vícios como sementes de ruína, reciprocidade como raiz de renascimento — é um convite ao leitor a uma reflexão pessoal. Em um mundo de telas que alimentam vaidades efêmeras, onde o desejo por mais nos afasta do essencial, a fábula de Mandeville e as vozes amazônicas nos chamam a uma pausa contemplativa. Talvez a verdadeira liberdade não seja perseguir o luxo infinito, mas dançar com o rio, como Krenak sugere, reconhecendo que somos, afinal, parte da colmeia viva da Terra. Só assim, adiando o fim que o Antropoceno profetiza, poderemos tecer um futuro onde o zumbido da vida não cesse, mas harmonize com o sussurro das folhas.
NOTA DE RODAPÉ: Esta reflexão brota do solo fértil cultivado pela generosidade intelectual e pela agudeza crítica da Profa. Dra. Isleide Arruda Fontenelle, cujas investigações fundamentais em seu livro Cultura do Consumo (2017) e em seu artigo Dilemas éticos na cultura do consumo (2023) foram bússolas essenciais para navegar entre as paixões mandevillianas e os abismos do Antropoceno aqui delineados. A ela, que transformou a sala de aula em um território onde o ato de pensar é um exercício de sensibilidade e compromisso ético com a vida, dedico esta singela homenagem. (* Publicado originalmente no portal Uruá-Tapera.)
Antropoceno: quando o benefício público se torna colapso planetário
A força do ensaio de Lobato está em revelar que o Antropoceno é, na prática, a escala planetária da colmeia mandevilliana. O que antes funcionava como engrenagem local de prosperidade agora opera como sistema global de exaustão.
A economia da atenção, o consumo simbólico, o greenwashing corporativo e a financeirização da natureza mostram que o vício deixou de ser um efeito colateral. Tornou-se método.
Nesse ponto, o texto dialoga de forma contundente com pensadores indígenas como Ailton Krenak e Davi Kopenawa, que oferecem não uma crítica moral, mas uma outra ontologia: a vida como relação, não como recurso.
Reciprocidade, Bem Viver e limites planetários
A noção de Bem Viver, presente em diversas cosmologias indígenas, confronta diretamente a lógica de crescimento infinito. Ela propõe:
- limites ecológicos claros;
- reciprocidade entre humano e não-humano;
- economia como meio, não como fim;
- abundância relacional, não acumulação material.
Essa visão aparece no texto como contraponto estrutural à colmeia de Mandeville. Onde o capitalismo vê eficiência, os povos da floresta veem ruptura de pactos vitais.

Blog Ambiental • Jovem Ashaninka avalia mudas de cedro na aldeia Apiwtxa, no Acre, em prática de reflorestamento que expressa a lógica do Bem Viver e da reciprocidade com a natureza.
Imagem: AP Photo / Jorge Saenz
O limite invisível do desejo
Se o funcionamento da economia global depende da expansão permanente do desejo, enquanto os sistemas naturais operam sob limites físicos inegociáveis, a ruptura deixa de ser uma hipótese distante e passa a ser uma condição estrutural. O ponto de tensão não está apenas na escassez de recursos, mas na incapacidade cultural de reconhecer que crescimento ilimitado, quando naturalizado, converte-se em risco sistêmico.
O ensaio não entrega respostas confortáveis porque o impasse que ele revela não é técnico, é civilizatório. Ao longo das últimas décadas, iniciativas de comunicação e governança tentaram suavizar esse conflito — muitas vezes com êxito estético, mas pouco efeito material, como discutido em marketing verde em crise. Persistir nesse caminho significa aceitar o colapso como externalidade aceitável do progresso, em vez de questionar o próprio desenho do sistema que o produz.
Conclusão: entre a colmeia e o limite planetário
A Colmeia Esquecida ultrapassa o campo da filosofia econômica para operar como um espelho incômodo da contemporaneidade. Ao articular Bernard Mandeville, capitalismo digital, métricas ESG, cosmologias indígenas e Antropoceno, o texto explicita que a crise ambiental não é apenas um problema de gestão ou tecnologia — trata-se de uma crise moral, política e ontológica profundamente enraizada.
Entre o vício absoluto, celebrado como motor econômico, e a virtude ingênua, incapaz de sustentar sociedades complexas, emerge a necessidade de uma economia dos limites. Uma economia capaz de reconciliar técnica e ética, produtividade e cuidado, eficiência e continuidade da vida. Essa transição exige mais do que inovação tecnológica; demanda revisão de valores, como já debatido em economia circular x modelo linear e em reflexões sobre o futuro sustentável que não será confortável.
Não se trata de negar o desejo humano — força histórica incontornável —, mas de reorientá-lo para formas de prosperidade compatíveis com os limites planetários. Caso contrário, a colmeia continuará zumbindo até que o próprio suporte da vida se torne inviável, confirmando que o Antropoceno não é apenas uma era geológica, mas o retrato de uma escolha coletiva mal resolvida.
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Perguntas Frequentes sobre A Colmeia Esquecida e o Antropoceno
1. O que Bernard Mandeville propõe em A Fábula das Abelhas e por que essa obra ainda é relevante?
Publicada em 1714, A Fábula das Abelhas sustenta a tese provocadora de que vícios privados — como vaidade, ambição e desejo por distinção — podem gerar benefícios públicos ao movimentar a economia. Mandeville rompe com a ideia moralista de que a prosperidade coletiva nasce da virtude individual. Sua obra é relevante porque antecipa a lógica do capitalismo moderno, no qual o interesse próprio, e não a ética, estrutura os sistemas produtivos e de consumo.
2. De que forma o pensamento de Mandeville ajuda a compreender o capitalismo contemporâneo?
O capitalismo atual opera exatamente como a colmeia de Mandeville: desejos individuais são estimulados, amplificados e organizados para sustentar mercados globais. A economia digital, o consumo simbólico e a financeirização da vida transformam vaidade, ansiedade e busca por reconhecimento em ativos econômicos. O ensaio evidencia que o sistema não corrige esses impulsos — ele depende deles — revelando uma continuidade histórica entre a alegoria do século XVIII e o capitalismo de plataforma do século XXI.
3. O que o Antropoceno revela sobre os limites desse modelo econômico?
No debate apresentado, o Antropoceno aparece como a consequência material e planetária da lógica mandevilliana levada ao extremo. Aquilo que antes gerava prosperidade localizada agora produz colapso sistêmico: crise climática, perda de biodiversidade, contaminação dos territórios e ruptura dos ciclos naturais. O Antropoceno expõe que os “benefícios públicos” do crescimento econômico escondem custos ambientais irreversíveis, ignorados pelas métricas tradicionais de progresso.
4. Qual é a crítica dos povos indígenas à lógica do progresso baseada no consumo?
As cosmologias indígenas rejeitam a ideia de que a natureza seja um recurso passível de exploração infinita. Em vez disso, defendem uma relação de reciprocidade, onde rios, florestas e animais são sujeitos de relação, não objetos econômicos. Essa visão confronta diretamente o modelo ocidental ao afirmar que o desequilíbrio ambiental é resultado de uma ruptura ética e espiritual, não apenas de falhas técnicas. O texto mostra que essa crítica não é simbólica, mas profundamente política e ontológica.
5. O ensaio aponta caminhos possíveis além do modelo atual de desenvolvimento?
Sim, mas sem soluções simplistas. O texto sugere a necessidade de uma reorientação profunda do conceito de progresso, incorporando limites ecológicos, suficiência material e responsabilidade coletiva. Em vez de crescimento infinito, propõe-se uma economia orientada pela continuidade da vida. Essa alternativa não elimina o desejo humano, mas o reinsere em uma lógica de moderação, reciprocidade e coexistência — condição essencial para enfrentar a crise civilizatória do Antropoceno.

2 Comentários
[…] Assim como ocorre na economia, promessas em excesso desvalorizam o discurso. Nos últimos anos, muitas marcas passaram a anunciar metas ambientais ambiciosas sem apresentar o caminho para alcançá-las. Neutralidade de carbono, impacto positivo e regeneração tornaram-se expressões recorrentes, porém pouco explicadas. […]
[…] fato, existe consenso científico sobre a necessidade de mudança de hábitos. O que não existe é disposição coletiva para encarar o significado real dessa afirmação. […]