O que acontece quando a ciência segue em frente, mas as pessoas que a sustentam ficam para trás? Em muitos laboratórios brasileiros, equipamentos de ponta permanecem ligados, projetos seguem formalmente ativos e publicações continuam sendo exigidas — mas a vida coletiva que sempre deu sentido à pesquisa está desaparecendo.
A solidão dos cientistas tornou-se um dos sintomas mais profundos e menos debatidos da crise contemporânea da ciência. Não se trata apenas de falta de recursos, mas de um esvaziamento humano que compromete a continuidade do conhecimento, a formação de novas gerações e a própria capacidade do país de produzir ciência relevante e transformadora.
Neste artigo, o Blog Ambiental traz a íntegra da reflexão do pesquisador Afonso Peche Filho sobre a solidão científica, contextualizando esse fenômeno como um alerta estrutural para o futuro da pesquisa no Brasil.
A solidão dos cientistas não é um drama individual, mas o reflexo de um sistema que se afastou da ciência como obra coletiva

Blog Ambiental • A ciência avança, mas muitos pesquisadores seguem sozinhos, pressionados por métricas e distantes da colaboração que dá sentido ao conhecimento.
A Solidão dos Cientistas
por Afonso Peche Filho*
A solidão científica é um sintoma silencioso da crise contemporânea da ciência. Muitos pesquisadores percorrem diariamente laboratórios vazios, instituições fragilizadas e agendas pressionadas por métricas que desumanizam a pesquisa. A ciência, que deveria nascer da colaboração, da troca e da construção coletiva, transforma-se progressivamente em uma trajetória individualista, marcada pela competição, pela produtividade forçada e pelo isolamento emocional e profissional.
Essa solidão não decorre da personalidade do cientista, mas de um modelo institucional que o transforma em “empreendedor de si mesmo”: alguém que deve publicar incessantemente, captar recursos, orientar alunos, administrar projetos, preencher relatórios e manter presença ativa em redes acadêmicas, quase sempre sem apoio material proporcional. Cria-se um paradoxo cruel: exige-se colaboração, mas as recompensas são estruturadas como se a ciência fosse uma corrida individual. Projetos são coletivos, mas avaliações e progressões de carreira permanecem rigidamente centradas na figura isolada do pesquisador.
Outra face dessa solidão é a perda gradual de pessoas fundamentais ao funcionamento dos laboratórios: técnicos, analistas, assistentes, pesquisadores seniores, funcionários especializados e colaboradores experientes. Muitos se aposentam, outros mudam de área, alguns falecem, e quase nunca há reposição. Assim, o laboratório permanece fisicamente de pé, com seus equipamentos e bancadas, mas sem a presença humana que lhe dava vida. As máquinas continuam lá, mas faltam as mãos que as calibravam, a experiência acumulada que solucionava falhas, e as conversas que compartilhavam saberes implícitos, conhecimentos que nunca foram escritos, mas mantinham o sistema funcionando.
Em inúmeros centros de pesquisa instala-se um cenário paradoxal: há o laboratório, mas não há a equipe. Há estrutura material, mas não há a comunidade epistêmica. O pesquisador se vê sozinho, tentando ocupar múltiplos papéis simultâneos: técnico, gestor, professor, analista, escritor científico e orientador. Essa multiplicidade impossível produz um esgotamento profundo. A ciência, que deveria ser trabalho de muitos, passa a ser responsabilidade de poucos, às vezes, de apenas um.
A solidão científica revela também a fragilidade dos vínculos institucionais contemporâneos. Quando o pesquisador se torna “a equipe de um”, rompe-se a continuidade das gerações científicas. Sem técnicos de carreira, sem jovens pesquisadores com bolsas dignas, sem renovação do quadro funcional, instala-se um processo lento de erosão. Laboratórios transformam-se em acervos do passado. Universidades perdem vitalidade. A ciência, esvaziada de sua base humana, perde capacidade de se projetar no futuro.
Diante desse quadro, surge a pergunta essencial: como superar a condição solitária e reconstruir a ciência como trabalho coletivo? A resposta não reside apenas no financiamento, embora este seja fundamental, mas na recuperação da noção de comunidade científica como infraestrutura social. É preciso reconectar pessoas, restaurar vínculos profissionais, garantir mecanismos de permanência institucional e valorizar equipes multidisciplinares. Exige-se a criação de ambientes que promovam convivência, acolhimento, diálogo, aprendizagem e cooperação cotidiana.
Superar a solidão científica implica reconhecer que a vulnerabilidade dos pesquisadores não é fraqueza individual, mas expressão de um sistema que negligencia sua própria sustentação. A reconstrução começa pelo fortalecimento das relações de trabalho: entre pesquisadores, docentes, técnicos, estudantes, parceiros institucionais e comunidades envolvidas na pesquisa. A ciência avança quando existe troca real, quando saberes circulam, quando a experiência se transmite e quando há continuidade institucional.
A solidão dos cientistas, portanto, é um alerta. Ela não é inevitável, tampouco definitiva. Indica que o ecossistema científico precisa de renovação estrutural, de políticas de valorização, de equipes estáveis e de vínculos sustentáveis. O futuro da pesquisa dependerá menos de indivíduos geniais e mais da capacidade de reconstruir ambientes coletivos que permitam às pessoas permanecer, colaborar e criar.
Enquanto houver esperança de recompor equipes, fortalecer instituições e cultivar redes de cuidado profissional, a ciência continuará encontrando caminhos para florescer, mesmo em meio às ausências, às perdas e aos silêncios que hoje marcam tantos laboratórios.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas.

Blog Ambiental • A ausência de pessoas é hoje um dos maiores riscos ao futuro da ciência.
Inteligência Artificial e a intensificação da solidão científica
A incorporação acelerada da inteligência artificial nos ambientes de pesquisa tem sido apresentada como solução para gargalos históricos da ciência, especialmente em contextos de escassez de recursos humanos e institucionais. No entanto, quando adotada sem uma estratégia orientada ao fortalecimento das equipes, a IA tende a intensificar a solidão científica, em vez de mitigá-la. A tecnologia passa a ocupar o lugar de pessoas que já não estão mais nos laboratórios, reforçando um modelo no qual o pesquisador atua de forma cada vez mais isolada.
Em muitos centros de pesquisa, a IA assume funções que antes eram desempenhadas por técnicos, analistas, assistentes e pesquisadores em formação: organização de dados, análises preliminares, revisão de textos, gestão de projetos e até apoio à tomada de decisões. Embora esses recursos ampliem a eficiência individual, eles também reduzem oportunidades de interação cotidiana, aprendizagem compartilhada e transmissão de saberes implícitos — elementos centrais da vida científica.
Outro efeito relevante é a ampliação das exigências institucionais. Ao invés de aliviar a carga de trabalho, a IA frequentemente eleva expectativas de produtividade, rapidez e volume de entregas. O pesquisador, agora apoiado por ferramentas inteligentes, passa a ser cobrado como se dispusesse de uma equipe ampliada, quando, na prática, permanece sozinho. Esse deslocamento aprofunda o paradoxo já existente: mais tecnologia, menos comunidade científica.
Por fim, sem políticas claras de governança, ética e integração institucional, a inteligência artificial corre o risco de consolidar a figura do cientista como “a equipe de um”, agora mediada por algoritmos. A superação desse cenário exige que a IA seja pensada como ferramenta de reconstrução coletiva da ciência, apoiando equipes, promovendo colaboração e fortalecendo vínculos humanos — e não como substituta silenciosa da base social que sustenta a produção do conhecimento.

1 Comentário
[…] desafio é recuperar a dignidade do trabalho científico como prática ética e transformadora. Isso não significa negar os avanços trazidos pela […]