O debate sobre sustentabilidade agrícola costuma concentrar-se em técnicas, insumos e índices de produtividade. No entanto, essa abordagem frequentemente ignora um aspecto decisivo: o modo de pensar que estrutura a relação entre sociedade, natureza e produção de alimentos. É exatamente nesse ponto que a agroecologia se afirma não como ajuste técnico, mas como transformação paradigmática.
Neste artigo, o Blog Ambiental apresenta a íntegra da reflexão do pesquisador Afonso Peche Filho, que propõe a agroecologia como uma ruptura cognitiva necessária frente às bases conceituais do modelo agrícola dominante. Trata-se de um texto que articula ecologia, pedagogia, território e ética, convidando o leitor a repensar profundamente o significado de produtividade, eficiência e desenvolvimento no campo.
Mais do que mudar práticas agrícolas, a agroecologia exige mudar a forma de pensar o mundo.
Sem ruptura cognitiva, a agroecologia corre o risco de ser reduzida a técnica. Com ruptura cognitiva, ela se afirma como projeto civilizatório.
Agroecologia – a necessária ruptura cognitiva
por Afonso Peche Filho*
A crise ambiental, alimentar, climática e social que atravessa os territórios rurais e urbanos não é apenas resultado de um conjunto de técnicas inadequadas, mas expressão direta de um modo de pensar que se consolidou ao longo de séculos. A agricultura moderna, fundada na mecanização intensiva, na padronização dos sistemas de cultivo, na simplificação ecológica e na dependência estrutural de insumos externos, tornou-se simultaneamente produtiva e destrutiva.
Diante desse paradoxo, a agroecologia emerge não como um pacote tecnológico alternativo, mas como uma ruptura cognitiva necessária frente às bases conceituais que sustentam o modelo dominante.
Essa ruptura não se refere apenas à substituição de práticas, mas à transformação profunda da forma como se compreende o solo, a planta, a água, a biodiversidade, o território e o próprio papel do agricultor enquanto agente ecológico. Trata-se de deslocar a agricultura do campo da extração para o campo da regeneração, da simplificação para a complexidade, da obediência técnica para a consciência crítica.
O modelo convencional de produção agrícola desenvolveu-se sob a lógica linear da causa e efeito: aplica-se fertilizante, obtém-se produtividade; aplica-se defensivo, obtém-se controle; mecaniza-se, obtém-se eficiência. Essa racionalidade fragmenta os sistemas vivos, reduzindo o solo a suporte físico, a planta a fábrica bioquímica e a paisagem a uma plataforma produtiva. Com isso, desarticula-se a percepção sistêmica dos agroecossistemas, invisibilizando processos biológicos, ecológicos e sociais fundamentais à sustentabilidade de longo prazo.

Blog Ambiental • A agroecologia fortalece a autonomia produtiva, a diversidade alimentar e os circuitos curtos de comercialização.
A agroecologia, por sua natureza, rompe com essa leitura fragmentada. Ela exige uma nova interpretação da realidade agrícola, baseada na interdependência entre os elementos do sistema. Solo, água, microrganismos, raízes, insetos, vegetação espontânea, clima e manejo passam a ser compreendidos como partes de uma teia viva, cuja funcionalidade depende do equilíbrio dinâmico entre seus componentes. Essa mudança não é apenas técnica; é essencialmente cognitiva.
Nesse sentido, a agroecologia exige aquilo que pode ser chamado de ruptura cognitiva: o momento em que o agricultor, o técnico ou o gestor deixam de aceitar como “natural” a lógica da degradação produtiva. Quando se percebe que altas produtividades obtidas à custa da perda de solo, da compactação, da erosão, da contaminação da água e do empobrecimento biológico não representam eficiência, mas sim um colapso retardado, ocorre uma transformação profunda na forma de interpretar a realidade.
Essa ruptura não acontece de maneira automática. Ela é quase sempre precedida por situações de crise: queda de fertilidade, aumento dos custos de produção, dependência crescente de insumos, perda de resiliência às secas, surgimento de pragas resistentes, contaminação de trabalhadores e comunidades. A partir dessas contradições vividas na prática cotidiana, abre-se espaço para uma releitura crítica do modelo produtivo.
Do ponto de vista pedagógico, esse processo se articula diretamente com a noção de “leitura do mundo”, desenvolvida por Paulo Freire, segundo a qual não basta aprender técnicas ou conceitos formais: é necessário aprender a interpretar criticamente a realidade. Na agroecologia, essa leitura do mundo torna-se leitura ecológica do território. O agricultor aprende a ler a estrutura do solo pelo comportamento da água, a ler a fertilidade pela diversidade biológica, a ler a qualidade do manejo pela vitalidade do sistema radicular e pelo equilíbrio entre espécies.
A contribuição de Ana Maria Primavesi nesse processo é central. Ao demonstrar que o solo é um organismo vivo, estruturado por relações biológicas, físicas e químicas inseparáveis, ela desloca definitivamente o eixo da agricultura do controle químico para a construção biológica da fertilidade. Essa mudança de paradigma só se consolida quando ocorre a ruptura cognitiva: quando o solo deixa de ser visto como recipiente e passa a ser reconhecido como sistema vivo funcional.

Blog Ambiental • Na agroecologia, o solo deixa de ser suporte físico e passa a ser reconhecido como um sistema vivo essencial à sustentabilidade.
A ruptura cognitiva na agroecologia também se manifesta na recusa da monocultura como padrão hegemônico. A simplificação extrema dos agroecossistemas, ao eliminar a diversidade funcional, gera sistemas altamente vulneráveis a pragas, doenças e estresses climáticos. A agroecologia, ao contrário, valoriza a diversidade como princípio organizador da estabilidade ecológica. Consórcios, rotações, sistemas agroflorestais e integração entre produção vegetal e animal passam a ser compreendidos não como alternativas marginais, mas como estratégias centrais de resiliência produtiva.
No entanto, adotar práticas agroecológicas sem romper com a lógica extrativista pode resultar em meras adaptações superficiais do sistema convencional. O uso de bioinsumos, por exemplo, pode ser facilmente incorporado ao modelo químico-industrial sem alterar suas bases estruturais. A ruptura cognitiva se expressa justamente quando o foco deixa de ser o produto e passa a ser o processo; quando o sucesso deixa de ser medido apenas por produtividade e passa a ser avaliado pela funcionalidade ecológica do sistema.
Essa transformação também tem implicações sociais profundas. O modelo convencional tende a concentrar terra, renda e poder, ao mesmo tempo em que subordina o agricultor às cadeias industriais de insumos. A agroecologia, ao fortalecer a autonomia produtiva, o conhecimento local, a cooperação comunitária e os circuitos curtos de comercialização, promove uma reorganização das relações sociais no território. Essa dimensão política da agroecologia é inseparável de sua dimensão ecológica.
Do ponto de vista da gestão do território, a ruptura cognitiva se expressa na transição de uma lógica de uso do solo baseada na ocupação predatória para uma lógica de cuidado funcional. Áreas de produção, proteção, circulação, moradia, corpos hídricos e fragmentos florestais deixam de ser compartimentos isolados e passam a ser interpretados como partes integradas de um sistema territorial vivo. A paisagem deixa de ser mero cenário para se tornar infraestrutura ecológica.
Essa mudança de perspectiva exige também uma transformação na formação técnica. O ensino agrícola tradicional, fortemente ancorado em disciplinas compartimentalizadas, tem dificuldade em promover a leitura sistêmica da realidade. A agroecologia, ao contrário, demanda uma formação integradora, capaz de articular solo, planta, clima, biodiversidade, economia e cultura. Nesse contexto, a ruptura cognitiva é também institucional: ela exige revisão dos currículos, das metodologias de extensão e dos indicadores de desempenho produtivo.
A resistência a esse processo de ruptura não é apenas técnica, mas cultural. O imaginário do progresso associado à mecanização, à química e à padronização ainda exerce forte influência sobre agricultores, técnicos e gestores. Questionar esse imaginário significa enfrentar estruturas de poder, interesses econômicos consolidados e narrativas historicamente construídas. Por isso, a ruptura cognitiva é quase sempre acompanhada de conflitos simbólicos, institucionais e políticos.

Blog Ambiental • A agroecologia conecta produção, território e gerações futuras em uma visão sistêmica do campo.
Contudo, os limites físicos e ecológicos dos sistemas agrícolas vêm se impondo de forma cada vez mais evidente. A compactação dos solos, a erosão acelerada, o colapso hidrológico de microbacias, a dependência energética e a instabilidade climática expõem de maneira concreta a insustentabilidade do modelo dominante. Nesse cenário, a agroecologia deixa de ser uma escolha ideológica para se tornar uma necessidade funcional.
A ruptura cognitiva, portanto, não é apenas desejável – é inevitável. A pergunta que se coloca é se ela ocorrerá de forma planejada, consciente e progressiva, ou de maneira abrupta, forçada por colapsos ambientais, econômicos e sociais. A agroecologia oferece o caminho da transição consciente, baseada na reconstrução gradual das funções ecológicas dos agroecossistemas.
Romper cognitivamente com o modelo extrativista significa aceitar que a produtividade real não é apenas aquela colhida na safra, mas aquela que se mantém ao longo do tempo sem destruir suas próprias bases de sustentação. Significa reconhecer que a fertilidade não se compra, se constrói; que a estabilidade não se impõe, se organiza; que a resiliência não se injeta, se cultiva.
Em síntese, a agroecologia não é apenas um novo modo de produzir alimentos. Ela representa uma transformação profunda na forma de pensar a relação entre sociedade e natureza. Essa transformação exige coragem intelectual, abertura ao diálogo entre saberes, humildade diante da complexidade dos sistemas vivos e compromisso ético com as futuras gerações. Sem ruptura cognitiva, a agroecologia corre o risco de ser reduzida a técnica. Com ruptura cognitiva, ela se afirma como projeto civilizatório.
*Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC*
Referência do texto original
EcoDebate. (2025). Agroecologia – a necessária ruptura cognitiva. EcoDebate.
Disponível em: https://www.ecodebate.com.br/2025/12/17/agroecologia-a-necessaria-ruptura-cognitiva/.
Acessado em 23 de dezembro de 2025, às 11h59.
Análise Editorial
A reflexão apresentada por Afonso Peche Filho expõe que a crise agrícola contemporânea é, antes de tudo, uma crise de pensamento. A agroecologia surge como resposta sistêmica, conectando produção, território, biodiversidade e justiça social.
Essa leitura dialoga com temas como sistemas alimentares sustentáveis, agricultura regenerativa e segurança alimentar, amplamente discutidos no Blog Ambiental.
Leia também:
A importância dos sistemas alimentares sustentáveis
Agricultura regenerativa
Alterações climáticas e segurança alimentar

Blog Ambiental • Mais do que produção, a agroecologia reposiciona o agricultor como agente ecológico do território.
Quando mudar a agricultura exige mudar a forma de pensar
O texto evidencia que não existe transição sustentável sem transformação do pensamento. A agroecologia, quando compreendida em sua dimensão plena, deixa de ser apenas um conjunto de práticas e reposiciona a agricultura como uma atividade regenerativa, ética e integrada aos sistemas vivos.
Mais do que uma alternativa produtiva, a agroecologia se afirma como uma mudança civilizatória necessária diante dos limites ecológicos do planeta e da urgência de reconstruir a relação entre sociedade, território e natureza.
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Blog Ambiental • A agroecologia propõe repensar a agricultura a partir dos limites ecológicos e da regeneração dos sistemas produtivos.
Perguntas Frequentes sobre Agroecologia e Ruptura Cognitiva
O que significa ruptura cognitiva na agroecologia?
A ruptura cognitiva na agroecologia é a mudança profunda na forma de compreender a agricultura. Ela rompe com a lógica extrativista do modelo convencional e passa a interpretar o agroecossistema como um sistema vivo, complexo e interdependente. Não se trata apenas de novas técnicas, mas de uma transformação do pensamento agrícola.
Qual a diferença entre agroecologia e agricultura convencional?
A agricultura convencional prioriza produtividade imediata, mecanização intensiva e uso de insumos externos. A agroecologia valoriza processos ecológicos, diversidade biológica e equilíbrio do sistema ao longo do tempo. Enquanto um modelo extrai recursos, o outro busca regenerar funções ecológicas.
A agroecologia é viável economicamente para os agricultores?
Sim. A agroecologia reduz a dependência de insumos externos, diminui custos de produção e aumenta a resiliência do sistema agrícola. Ao longo do tempo, sistemas agroecológicos tendem a apresentar maior estabilidade produtiva e segurança econômica para o agricultor.
Por que o solo é central na agroecologia?
Na agroecologia, temos que compreender o solo como um organismo vivo. Sua estrutura biológica, física e química influencia diretamente a fertilidade, a retenção de água e a saúde das plantas. Um solo vivo é a base para sistemas agrícolas resilientes e sustentáveis.
A agroecologia pode ajudar a enfrentar as mudanças climáticas?
Sim. Sistemas agroecológicos aumentam a biodiversidade, melhoram o sequestro de carbono no solo e reduzem a dependência de insumos de alto impacto ambiental. Além disso, tornam os sistemas agrícolas mais resilientes a secas, enchentes e eventos climáticos extremos.

3 Comentários
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