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Blog Ambiental • Mesa com milho, soja, cana-de-açúcar e frascos de Biodiesel, Etanol e SAF

Alimentos e Biocombustíveis: Tudo a Ver

Como políticas públicas, ciência e mercado podem conciliar segurança alimentar e transição energética no Brasil — e por que a narrativa “combustível versus alimento” precisa ser repensada agora.

por Arnaldo Jardim
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Afinal: é justo culpar os biocombustíveis por qualquer aperto no carrinho de compras do brasileiro? Nesta reflexão urgente, exploramos dados, decisões públicas e estudos que mostram por que essa acusação simplista perde força diante da realidade produtiva e das soluções técnicas que o Brasil já tem em mãos, pois alimentos e biocombustíveis no Brasil estão intimamente conectados — entender essa relação é fundamental para formular políticas públicas que garantam, ao mesmo tempo, segurança alimentar e uma transição energética justa e eficiente.

Nestes primeiros meses de 2025, com pressão inflacionária sobre itens da cesta básica, tornou-se necessário olhar além de narrativas simplistas. Este texto apresenta contexto, dados e propostas para conciliar produção de alimentos e expansão dos combustíveis renováveis no país.

Entenda por que produzir energia renovável e garantir comida no prato caminham lado a lado — e como decisões políticas recentes influenciam esse equilíbrio.

“Biocombustíveis não são inimigos da segurança alimentar — são parte da solução, quando bem regulados e integrados à política pública.”


Blog Ambiental • Ilustração de trator em plantação com girassóis e horta sustentável

Blog Ambiental • A arte reforça a harmonia entre agricultura de alimentos e cadeias de bioenergia no campo brasileiro.

Por que esse debate sobre Alimentos e biocombustíveis no Brasil importa

A discussão “fuel vs food” (combustível versus alimento) ganhou força internacionalmente e, quando trazida sem cuidado ao Brasil, tende a gerar pânico desnecessário. O problema não é teórico: preços altos impactam famílias e decisões governamentais influenciam investimentos. Porém, reduzir o debate aos biocombustíveis como bodes expiatórios é arriscado e contraproducente. Precisamos separar causas reais — clima, câmbio, logística, quebra de safra — de narrativas que distorcem as soluções possíveis.

Transição energética e segurança alimentar são objetivos compatíveis. O desafio é desenhar políticas que aproveitem sinergias: estimular biocombustíveis de baixa intensidade de carbono, apoiar tecnologia agrícola e preservar áreas produtivas essenciais.


Contexto político-econômico de Alimentos e biocombustíveis no Brasil

Nos primeiros meses de 2025, a pressão sobre os preços ao consumidor trouxe o tema dos biocombustíveis para o centro do debate. Autoridades e mercados buscaram explicações, e algumas vozes apontaram o aumento de misturas de biocombustíveis como causa da elevação nos preços de alimentos.

Convido o leitor a acompanhar a análise que segue: faremos um exame dos fatos, das leis recentes, dos estudos acadêmicos e das medidas do governo — mostrando onde há mitos e onde há evidências concretas. Leia com atenção: o futuro energético do Brasil pode e deve ser construído de forma a proteger o direito à alimentação.


Alimentos e Biocombustíveis: Tudo a Ver.

Nesses três primeiros meses de 2025, as prateleiras dos supermercados continuam pressionando o Índice Geral de Preços – Mercado (IGPM). Para aliviar a pressão, governo têm elencado diversos motivos para justificar a alta dos preços, chegando a apresentar os biocombustíveis, biodiesel e etanol, como os verdadeiros vilões.

Lançar dúvidas sobre as virtudes dos biocombustíveis causou estranheza, principalmente após o presidente Lula ter sancionado, em uma grande cerimônia, a Lei do Combustível do Futuro, que gerou investimento da ordem de 200 bilhões de investimentos para ampliar ainda mais a participação dos combustíveis renováveis na matriz energética brasileira. A controvérsia fuel versus food, apresentada pelos europeus, não pode prejudicar a implementação de políticas públicas no Brasil.

Diferentemente da União Europeia, onde existe uma grande competição por áreas agricultáveis – a Dinamarca cultiva 76,8%, do seu território; a Irlanda, 74,7%; os Países Baixos, 66,2%; o Reino Unido, 63,9%; e a Alemanha, 56,9%- o Brasil utilizou, em 2024, 76 milhões de hectares para toda sua produção agropecuária, algo em torno de 9% de todo o seu território. Além disso, estima-se que há 159 milhões de hectares com algum grau de degradação, dos quais 36 milhões poderiam ser liberados para produção de alimento.

A elevação dos preços de óleo de soja, por exemplo, foi causada por outros fatores que não a produção de biodiesel, como a quebra de safra, provocada por problemas climáticos, ou o câmbio, haja vista que a soja é precificada em dólar, o que afeta o mercado doméstico. O preço do óleo de soja ficou muito caro durante a pandemia e sofreu uma forte deflação, em 2023, de 36%. A safra recorde de 2024/2025 promete reduzir a pressão sobre os preços, indicando oscilação natural em função de oferta/demanda. Além disso, o aumento do esmagamento da soja amplia a oferta de farelo no mercado com consequente redução do preço da proteína animal.

Blog Ambiental • Arnaldo Jardim em área agrícola com colheita mecanizada ao fundo

Blog Ambiental • Arnaldo Jardim destaca que alimentos e biocombustíveis podem coexistir com equilíbrio e tecnologia no campo brasileiro.


O milho tem cenário bem semelhante. É improvável que o aumento da produção de etanol tenha promovido aumento de preços dos alimentos, haja vista que o Brasil segue com estoques anuais do grão em níveis confortáveis, situação em que a produção é maior do que a soma do consumo e da exportação. Estudo, publicado na GCB Bioenergy – revista conceituada na área de energia sustentável-, mostra ainda que os preços do milho no Brasil estão muito alinhados com o mercado internacional, cuja flutuação acompanha conjecturas pontuais.
Além disso, a chamada “safrinha” brasileira, uma segunda safra de milho plantada após a colheita da safra principal, aumenta a produção de milho sem afetar o preço, o que nos permite produzir energia a partir de biocombustíveis sem comprometer a oferta alimentar.

No último dia 19, o CNPE decidiu fixar o percentual de biodiesel ao diesel fóssil em 14% (B14) a partir de 1º de março de 2025, suspendendo a vigência do percentual de 15% (B15), conforme estabelecido pela Lei 14.993/24 – combustível do Futuro, sob o argumento de que o aumento da mistura poderia pressionar o preço dos alimentos – um retrocesso. Além de haver soja para atender o mercado – em 2024, produzimos 147,38 milhões de toneladas de grãos, dos quais apenas 54 milhões são esmagadas para o Biodiesel-, o seu uso reduz as emissões de GEE’s em até 80%.

O Ministério de Minas e Energia apresentará no próximo dia 17, os estudos dos testes do E30, para a elevação do percentual de Etanol na gasolina de 27% para 30%, medida que tornará o Brasil autossuficiente em gasolina. A manutenção do atual percentual será uma mensagem negativa para o mercado, sugerindo que pode haver uma mudança de rota a qualquer momento e o País deixe de investir em biocombustíveis.

Os biocombustíveis são a rota mais custo-efetiva do mundo para promover a transição energética e uma formidável oportunidade para gerar investimento e produzir riqueza, não abriremos mão disto!

*Arnaldo Jardim é deputado federal e presidente da Comissão de Transição Energética da Câmara dos Deputados


Análise dos pontos principais desse Artigo

1. Território e uso da terra: números que importam

O Brasil tem escala territorial única. Comparações simplistas com países europeus — onde a competição por terras é intensa — não se aplicam diretamente aqui. Dados oficiais indicam que a parcela de terra usada pela agropecuária é relativamente pequena frente ao total do território nacional, e existem áreas degradadas recuperáveis que ajudam a ampliar oferta sem conversão de florestas nativas. Assim, políticas coerentes de recuperação de pastagens degradadas e de intensificação sustentável da produção podem liberar terras e aumentar produtividade sem pressionar preços.

2. Oferta, estoques e safras: por que soja e milho seguem voláteis

Variações nos preços do óleo de soja e do milho têm sido impactadas por fatores climáticos, câmbio e dinâmicas internacionais. Importante destacar que, no caso do milho, a safra de “safrinha” ampliou para além do esperado, reforçando estoques e desacoplando parcialmente preço e produção para etanol. Estudos recentes mostram que a entrada do etanol de milho não necessariamente elevou preços domésticos de forma estrutural — o que abre espaço para política de biocombustíveis sem comprometer oferta alimentar.

3. Políticas públicas e decisões do CNPE: avanço ou recuo?

A Lei 14.993/2024 instituiu programas para biocombustíveis e estabeleceu metas. Ainda assim, decisões concretas sobre misturas (B14, B15; E27 a E30) passaram por avaliações técnicas e políticas. Houve momentos de adiamento ou revisão — que refletem a tensão entre objetivos ambientais, industriais e de custo social. Documentos oficiais e comunicados do CNPE e do MME explicam esses movimentos e mostram que a decisão não é unicamente técnica, mas também política.

4. Emissões e benefícios climáticos

O uso de biodiesel e etanol reduz emissões de gases de efeito estufa (GEE) quando comparado aos combustíveis fósseis. Os ganhos variam por fonte e tecnologia, mas estudos e estimativas do setor apontam reduções significativas — no caso do biodiesel, redução potencial de até 80% de emissões no ciclo de vida, dependendo da matéria-prima e práticas agrícolas.


Blog Ambiental • Milho e amostras líquidas em tubos de ensaio representando etanol de milho

Blog Ambiental • O milho brasileiro tmabém permite expandir a bioenergia sem pressionar estoques ou preços de alimentos.

Medidas práticas para conciliar produção de alimentos e biocombustíveis

  • Intensificação sustentável: investir em produtividade por hectare em vez de expandir área.

  • Recuperação de áreas degradadas: liberar milhões de hectares aptos para produção sem ampliar o desmatamento.

  • Transparência e monitoramento: avaliar impactos por cadeia (soja, milho, cana), com dados públicos.

  • Incentivo a biotecnologias e bioinsumos: reduzir insumos químicos, aumentar rendimento e resiliência climática. (Veja políticas e programas relacionados em Políticas públicas de incentivo a energia renovável e Bioinsumos na produção agropecuária).

  • Estudo contínuo e comunicação: informar corretamente a população para evitar mitos que atrapalhem investimentos.

Internamente, recomendamos ao leitor aprofundar-se em soluções e estudos práticos já tratados no Blog Ambiental, por exemplo: Políticas públicas de incentivo a energia renovável, O etanol e o SAF no combustível do futuro, Bioinsumos na produção agropecuária, e Estratégias de adaptação às mudanças climáticas para o agro.


O que fazer agora?

Se a sua preocupação é garantir comida na mesa e reduzir a conta de energia, é hora de olhar para políticas públicas de forma integrada. Apoie iniciativas que unam sustentabilidade, ciência e indústria: pergunte a seus representantes como planejam recuperar áreas degradadas, incentivar biocombustíveis de baixo carbono e fortalecer a pesquisa agrícola. A pressão pública bem informada é uma das melhores ferramentas para decisões responsáveis.


Blog Ambiental • Ilustração de milho, tomates e barril com folha simbolizando biocombustível sustentável

Blog Ambiental • Arte que reforça a mensagem de que alimentos e energia limpa podem caminhar juntos rumo a um futuro sustentável.

Como promover a transição?

A relação entre alimentos e biocombustíveis no Brasil é complexa, mas não é uma contradição inevitável. Os dados e estudos mostram que, com políticas públicas bem desenhadas, investimentos em tecnologia e recuperação de áreas, é possível promover a transição para uma matriz energética mais limpa sem comprometer a segurança alimentar. Demonizar os biocombustíveis serve interesses políticos de curto prazo e afasta investimentos sociais e ambientais que beneficiariam toda a sociedade.

Apostar na integração entre agricultura, bioenergia e inovação tecnológica é, em última instância, apostar na soberania energética e na segurança alimentar do Brasil. O caminho é técnico, transparente e, acima de tudo, baseado em evidências — não em narrativas simplistas.


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Perguntas frequentes sobre Alimentos e Biocombustíveis no Brasil

1. Os biocombustíveis aumentam o preço dos alimentos no Brasil?
Não há evidência clara de que a produção de biocombustíveis seja a principal causa da alta de preços no Brasil. Fatores como quebra de safra por clima, variação cambial e demanda internacional têm impacto mais direto. Estudos recentes indicam que o milho e outros grãos seguem alinhados ao mercado global, e que safras extras (como a safrinha) ajudam a mitigar pressões. Wiley Online Library+1

2. O aumento do percentual de biodiesel (B14 → B15) compromete a oferta de soja?
Os números de produção de soja e a capacidade de esmagamento mostram que há soja para abastecer tanto o mercado de alimentos quanto a demanda do biodiesel. Além disso, ganhos de produtividade e maior utilização de farelo reduzem impactos sobre proteína animal e preços. Documentos oficiais e análises do setor detalham essas projeções. Serviços e Informações do Brasil

3. A elevação do etanol na gasolina para E30 é segura para veículos e economia?
Testes técnicos e estudos do setor avaliam compatibilidade e performance de veículos com blends mais altos de etanol. A medida pode aumentar a autossuficiência em gasolina e reduzir importações, mas exige comunicação, adaptação industrial e incentivos para garantir segurança técnica e econômica.

4. Produzir biocombustíveis sempre significa desmatamento?
Não necessariamente. O Brasil tem potencial para expandir produção via recuperação de áreas degradadas, intensificação sustentável e uso de resíduos. Políticas públicas e fiscalização ambiental são essenciais para impedir o desmatamento e assegurar práticas sustentáveis. Veja iniciativas e programas que incentivam práticas de baixo carbono.

5. Como a sociedade pode influenciar políticas sobre biocombustíveis?
Informando-se com fontes técnicas, participando de consultas públicas, cobrando transparência dos representantes e apoiando pesquisas independentes. A pressão cidadã por políticas que conciliem clima, produção e segurança alimentar é decisiva para decisões equilibradas.

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1 Comentário

Políticas públicas de Incentivo à Energia Renovável 12/01/2026 - 18:37

As políticas públicas de incentivo à energia renovável estimulam o investimento nesse setor, gerando oportunidades de negócios e a criação de empregos.

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