Qual será o futuro do nosso campo quando a ciência tropical, a indústria e a política pública atuarem juntos para reduzir a pegada química da agricultura? A resposta está nos bioinsumos: produtos e processos biotecnológicos que já começam a reescrever as regras da produtividade sustentável no Brasil.
Este texto reúne fatos, histórico e políticas públicas recentes — mantendo na íntegra a análise técnica e as propostas dentro da série “Arnaldo na COP-30”, do Deputado Arnaldo Jardim para o Blog Ambiental — e complementa com contextualização, links úteis, perguntas frequentes e recomendações práticas para produtores, técnicos e gestores públicos.
Bioinsumos são a convergência entre inovação e sustentabilidade — e a Lei 15.070 é o marco que permite sua escalada no Brasil.
“Bioinsumos não são uma moda: são a tecnologia que permitirá ao Agro brasileiro produzir mais com menos impacto ambiental.”

Blog Ambiental • Bióloga examina amostra vegetal ao microscópio em laboratório especializado — Imagem de DC Studio no Freepik.
Bioinsumos: vanguarda tecnológica para promover sustentabilidade na produção agropecuária
Por Arnaldo Jardim
Após ampla discussão no Congresso Nacional, aprovamos, em dezembro de 2024, a Lei 15.070, que estabelece regras para produção de bioinsumos para uso agropecuário, cujo objetivo de promover práticas sustentáveis e reduzir a importação de insumos químicos – só em 2024, o agro brasileiro gastou cerca de US$ 25 bilhões para importar 85% dos fertilizantes que utiliza anualmente.
Segundo a Embrapa, bioinsumos são produtos ou processos agroindustriais desenvolvidos a partir de enzimas, metabólitos, extratos de plantas, microrganismos e macrorganismos destinados ao controle de pragas e doenças, bem como destinados à fertilização do solo e nutrição vegetal. Como substitutos de fertilizantes e agroquímicos (fungicidas, inseticidas e herbicidas), são amplamente utilizados na produção agropecuária.
A lei, de autoria do dep. Zé Vitor e relatada pelo dep. Sergio Sousa, consolida o agro brasileiro na rota da sustentabilidade ao reconhecer os bioinsumos como ferramentas fundamentais para uma agricultura sustentável. Cria oportunidades para empresas do setor ao simplificar o registro, possibilitando que novos produtos cheguem ao mercado mais rapidamente. Para os bioinsumos produzidos para o consumo próprio, nas propriedades rurais, o marco legal dispensa o registro, desde que não sejam comercializados e sua produção siga instruções de boas práticas ambientais. Os produtores poderão continuar trabalhando dentro da legalidade.
Incentiva também a produção nacional, fomentando a instalação de biofábricas por todo o país. Com regras claras, empresas e institutos de pesquisa terão segurança jurídica para investir em tecnologias inovadoras, ampliando o portfólio de produtos biológicos disponíveis no mercado. Como o maior exportador mundial de commodities agrícolas, o Brasil ganha um diferencial competitivo ao consolidar os bioinsumos em seus sistemas de produção.
O modelo de intensificação agrícola, implementado a partir da Revolução Verde, promoveu, sem dúvida alguma, um aumento expressivo da produção mundial de alimentos, mas trouxe na sua esteira contaminação e degradação dos solos, perda de biodiversidade e exaustão vegetativa face ao uso intensivo de pesticidas. Externalidades que os bioinsumos podem ajudar a mitigar.
O Brasil, em função da sua rica biodiversidade, tem um enorme potencial para produzir insumos biológicos. Segundo o Departamento de Apoio à Inovação Agropecuária, do MAPA, os biodefensivos movimentaram, em 2022, R$ 1,3 bilhão, um aumento de 37% em relação à safra anterior. Ainda que os números estejam distantes dos gastos com defensivos tradicionais – R$ 52,1 bilhões, em 2021-, a produção de biológicos está em forte expansão. Na safra 2022/2023, houve um aumento de 30% e, na safra 2023/2024, foram registrados mais de R$ 5 bilhões em vendas.
Levantamento realizado a partir dos dados do AGROFIT, banco de informações sobre os produtos agroquímicos do Ministério da Agricultura e Pecuária – MAPA, mostra que já existem 136 empresas com biológicos registrados no Ministério, disponibilizando mais de 620 produtos ao mercado, dos quais 192 foram registrados em 2024. São bioinoculantes, como fixadores de nitrogênio e promotores de crescimento, biodefensivos, como bioinseticida, bionematicida e bioacaricida, e biofertilizante, como aminoácidos, extrato de algas, extratos vegetais.
O setor está crescendo a uma média anual de 21% e a taxa de adoção de bioinsumos por agricultores brasileiros é uma das maiores do mundo, em grande medida em função do sucesso de tecnologias desenvolvidas aqui mesmo em terras tropicais como a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) na cultura da Soja. As pesquisas com FBN começaram ainda na década de 1960 e possibilitaram a redução de gastos com fertilizantes e o aumento da produtividade.
O expoente dessa revolução foi Johanna Döbereiner, alemã de nascimento e naturalizada brasileira. Essa cientista iniciou suas pesquisas no antigo Serviço Nacional de Pesquisa Agropecuária, onde estudou a fundo o uso de bactérias para fixação de nitrogênio. A inoculação do microrganismo em suas raízes, possibilitou a leguminosa obter nitrogênio diretamente do ar e fixá-lo no solo. A FBN transformou o Brasil no maior produtor mundial do mundo e uma economia, segundo a Embrapa, de cerca de 72 bilhões de reais nas importações de fertilizantes somente na safra de 2022/2023.
Isso sem mencionar os benefícios ambientais. Estima-se que a produção de 1 kg de fertilizante nitrogenado sintético seja responsável pela emissão de 10 kg de CO₂ equivalente (CO₂eq). Considerando que, aproximadamente, 80% da área cultivada de soja no país utiliza a FBN, o Brasil deixa de emitir, anualmente, 430 milhões de toneladas de Gases de Efeito Estufa.
Outra biotecnologia de sucesso é o controle da broca-da-cana, responsável por prejuízos de R$ 8 bilhões, segundo o Centro de Tecnologia Canavieira – CTC. Na década de 1970, desenvolvemos um dos mais bem sucedidos programas de controle biológico do mundo introduzido o uso de uma vespinha, Apanteles flavipes, que predava as lagartas da broca, impedindo que elas completem o seu ciclo de vida. Atualmente, o agente biológico é outra vespa, Cotesia flavipes, que parasita ovos das larvas, controlando a infestação. A grande vantagem da Cotesia em relação à Apanteles é sua capacidade de parasitar a larva mesmo após a entrada no colmo da cana.
São exemplos exitosos como esses que tem garantido o uso, cada vez maior, de biológicos no campo. Estima-se que a área tratada com bioinsumos, na safra 2024/2025, pode chegar a 155,4 milhões de hectares, considerando o número de aplicações na mesma área – um aumento de 13% em relação à safra anterior.
Os bioinsumos são sinônimo de sustentabilidade. Somos o maior produtor e exportador mundial de soja, açúcar, café e suco de laranja. O maior exportador mundial de carne bovina e de frango e figuramos entre os maiores produtores de milho do planeta. E, para safra 2024/2025, a previsão é de 325 milhões de toneladas de grãos – novo recorde. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) deposita em nossa agricultura todas as esperanças para garantir a segurança alimentar mundial.
Se somos convocados a aumenta a produção, somos cobrados também para desenvolver sistemas produtivos menos impactantes. Hoje não basta produzir. É preciso que essa produção respeite as fragilidades ambientais. Já não se aceita mais a carne bovina associada ao desmatamento da Amazônia. Todos questionam de onde vem a soja e o açúcar. Sem falar nos efeitos nocivos dos agroquímicos sobre o meio ambiente e a saúde humana.
O problema é que a agricultura tropical, ao mesmo tempo que possibilita grandes produções – até 3 safras por ano-, favorece o aparecimento de muitos insetos e fungos. De acordo com a Organização das Nações Unidas – ONU, aproximadamente 40% da produção agrícola global é perdida para os insetos, um prejuízo de mais de US$ 220 bilhões todos os anos. Se por um lado o uso de defensivos químicos é fundamental para se produzir cada vez mais, por outro em uma agricultura sustentável é imprescindível substituí-los por tecnologias menos impactantes. A exemplo do controle da Helicoverpa sp.
A lagarta acorre em várias culturas como tomate, cereais, citros, algodão, feijão, milho e, especialmente, soja, onde tem provocado severos prejuízos. Registrada no Brasil em 2013, tornou-se um pesadelo para os produtores de grãos em função da sua mobilidade – os adultos podem migrar para mais de 2.000 km de distância, e pela residência que a praga adquiriu a inseticidas. Estimam-se em US$ 5 bilhões as perdas causadas por essa espécie em todo o mundo.
Seu controle deve ser feito com diferentes estratégias, de forma integrada, buscando atingir um controle eficiente sem promover o surgimento de resistências. Uma única fêmea, durante o período de oviposição, pode colocar de até 3.000 ovos sobre as plantas, o que dá ideia do seu alto potencial reprodutivo. O uso de biológico, nesse caso, tem sido um grande aliado. Deve-se identificar a praga corretamente, realizar o monitoramento, conhecer a dinâmica populacional, entender os fatores ambientais e, principalmente atacar a praga no seu ponto de fraqueza.
Nesse controle, os inseticidas biológicos seletivos tem alcançado grandes resultados, como os à base de vírus que controlam até 95% das lagartas com até 1 cm. Utilizado em 1 milhão de hectares de soja no Brasil, o produto tem evitado a aplicação de cerca de 1,2 milhão de litros de inseticidas nas lavouras brasileiras. Menos impacto ao meio ambiente e à saúde da população.

Arnaldo Jardim em material oficial da COP30 Brasil Amazônia, evento que aconteceu em Belém em 2025.
Os bioinsumos estão fomentando também a inovação tecnológica, haja vista que esses produtos demandam uma nova abordagem, novos paradigmas. Um bom exemplo é a produção de sulfato de potássio, a partir das cinzas produzidas na caldeira da fábrica de celulose da Klabin – um processo revolucionário. É bom lembrar que o Brasil é altamente dependente da importação de potássio (k), mais de 95% do que consome, aproximadamente 14 milhões de toneladas, só em 2024.
A produção ocorre na Unidade Puma da empresa, onde as cinzas passam por um procedimento que separa o potássio dos elementos prejudiciais às caldeiras. Com essa nova tecnologia, pode-se recuperar o fertilizante na forma de sulfato cristalizado, resultando em um novo produto de grande importância na composição de fertilizantes. O que antes era submetido ao tratamento dos efluentes da planta, e perdido, agora pode produzir aproximadamente 22 toneladas sulfato de potássio/dia.
E mais: os bioinsumos estão gerando milhares de empregos diretos e indiretos, com elevada qualificação profissional. Segundo a Michael Page, uma das maiores consultorias especializadas em recrutamento, a elevada demanda pelos bioinsumos provocou uma onda de contratações de profissionais neste setor, com as contratações crescendo 27% em 2024, especialmente para cargos de gerência. Mas faltam técnicos que entendam de biológicos.
Temos inúmeros pesquisadores na área, mas ainda poucos técnicos preparados para atender as necessidades das empresas. Nesse sentido, e como esse profissional não está disponível no mercado, é necessário incentivar a aproximação da pesquisa e do setor produtivo, estabelecendo parcerias, para formação de profissionais com capacitação técnica adequada. Praticamente todos os players do mercado tradicional de insumos agrícolas estão investindo em bioinsumos e a demanda por mão-de-obra qualificada, e muito bem remunerada, só vai aumentar.
Uma iniciativa que merece destaque foi a criação, em 2022, da UniBiotrop, uma Universidade Corporativa, com contou com a colaboração da Faculdade de Agronegócios de Holambra (Faagroh) e a SmartMip – empresa de pesquisa associada à incubadora da USP/ESALQ (ESALQTec) para o treinamento de estudantes prestes a concluir a graduação. É assim que as empresas estão formando seus quadros e retendo talentos.
Os bioinsumos eram vistos, até bem pouco tempo, como uma alternativa ao tratamento convencional. Hoje são o único caminho. Uma sustentabilidade exigida ao longo de toda a cadeia, especialmente pelo consumidor, cada vez mais seletivo.
É entusiasmante perceber como o produtor rural, e toda nossa cadeia produtiva, têm assimilado esses princípios. Com espírito empreendedor e inovador, o nosso homem do campo tem sido vanguarda na incorporação desses novos insumos. O Brasil, destacadamente, é o País que mais assimilou o uso dos bioinsumos, cuja adesão acontece de forma sem paralelo no mundo.
A agricultura sustentável é uma grande oportunidade para o agro brasileiro.
Arnaldo Jardim é deputado federal e vice-presidente da Frente Parlamentar Agropecuária.

Blog Ambiental • Agrônoma inspeciona amostra vegetal em viveiro durante análise de qualidade — Imagem de Freepik.
Por que esse tema importa agora?
Com a aprovação da Lei 15.070 e a escalada de investimentos em biofábricas e P&D, os bioinsumos deixam de ser apenas alternativa e se tornam componente central da estratégia de segurança alimentar e mitigação de impactos ambientais do Agro. A adoção desses produtos reduz dependência de importações de fertilizantes, diminui emissões associadas à produção de insumos sintéticos e cria empregos qualificados.
Impactos práticos no campo
- Redução do uso de fertilizantes sintéticos e agroquímicos;
- Melhorias na saúde do solo e na biodiversidade agrícola;
- Diminuição de emissões de GEE associadas à produção de insumos;
- Novas cadeias produtivas e oportunidades de negócios locais.
Exemplos e soluções nacionais
Do uso da Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) na soja ao controle biológico da broca-da-cana com Cotesia flavipes, o Brasil já demonstrou capacidade técnica e operacional para implantar soluções de biocontrole em grande escala. Projetos de recuperação de nutrientes como o aproveitamento de cinzas industriais para produção de sulfato de potássio mostram como a economia circular também dialoga com a nova matriz de insumos.
Links internos recomendados (leitura complementar):
Fontes externas e apoio técnico
Instituições como a Embrapa, o Ministério da Agricultura (MAPA) e organismos internacionais como a FAO têm papel central no fomento, na validação técnica e na difusão desses produtos.

Blog Ambiental • Cientista brasileira em laboratório com plantas e microscópio, símbolo da integração entre pesquisa científica e preservação ambiental. A bandeira do Brasil ao fundo reforça o papel da ciência nacional na sustentabilidade.
Desafios e recomendações
- Formação técnica: ampliar cursos técnicos e parcerias universidade-empresa para formar profissionais capazes de multiplicar o uso de biológicos.
- Infraestrutura de P&D: incentivar parques tecnológicos e biofábricas regionais para reduzir importações e gerar produtos adaptados às condições tropicais.
- Política pública clara: implementar regulamentos que incentivem produção nacional, compras públicas sustentáveis e compras corporativas responsáveis.
- Adoção integrada: promover práticas de manejo integrado de pragas e solos que usem bioinsumos como parte de sistemas mais amplos (ex.: ILPF, sistemas agroflorestais).
Ainda em dúvida? A hora de agir é agora.
Produtor, técnico ou gestor: se existe uma chance de produzir mais e com menos impacto, ela passa por testar e incorporar bioinsumos. Procure assistência técnica, participe de programas de demonstração e dialogue com centros de pesquisa. A velocidade da transição dependerá da capacidade de todos — setor público, iniciativa privada e produtores — de transformar conhecimento em prática.
Revolução Produtiva mais Sustentável
Os bioinsumos representam uma combinação de inovação, competitividade e responsabilidade ambiental. A Lei 15.070 e o crescimento do setor mostram que o Brasil pode, de fato, liderar uma revolução produtiva mais sustentável. Investir em pesquisa, qualificação e infraestrutura, assim como garantir mercados e políticas favoráveis, é transformar oportunidade em realidade. O produtor brasileiro já mostrou que sabe inovar — agora falta ampliar essa inovação para toda a cadeia.
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Perguntas frequentes
1. O que são bioinsumos e por que são importantes?
Bioinsumos são produtos e processos derivados de organismos ou extratos naturais (microrganismos, enzimas, extratos vegetais) usados para fertilização e controle de pragas. São importantes porque reduzem o uso de químicos sintéticos, protegem a saúde do solo e diminuem impactos ambientais e emissões associadas aos fertilizantes sintéticos.
2. A Lei 15.070 facilita o acesso aos bioinsumos?
Sim. A Lei 15.070 cria um marco regulatório que simplifica o registro e regula a produção para uso próprio, estimulando a instalação de biofábricas e garantindo segurança jurídica para empresas e institutos de pesquisa investirem em inovação.
3. Bioinsumos substituem totalmente os fertilizantes e defensivos químicos?
Não necessariamente de imediato. Em muitos sistemas, bioinsumos fazem parte de estratégias integradas, substituindo parte dos insumos sintéticos e reduzindo doses. A transição exige práticas de manejo, monitoramento e adaptação tecnológica.
4. Quais são os principais benefícios ambientais dos bioinsumos?
Entre os benefícios estão: menor contaminação de solos e águas, redução de emissões de gases de efeito estufa (reduzindo a necessidade de fertilizantes sintéticos), preservação de biodiversidade e menor risco à saúde humana por exposição a químicos.
5. Como produtores podem começar a adotar bioinsumos?
Recomenda-se começar por testes em pequenas áreas, buscar assistência técnica, participar de demonstrações de campo e integrar bioinsumos a práticas de manejo como rotação de cultura e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Parcerias com universidades e empresas podem acelerar a curva de aprendizagem.

2 Comentários
Os verdes estão florescendo. A agricultura sustentável, por exemplo, é outro campo de destaque. A adoção de práticas agroecológicas e a crescente demanda por alimentos orgânicos têm impulsionado a criação de empregos em todo o país.
[…] avanço dos bioinsumos na produção agropecuária reforça essa lógica: produtividade, redução de emissões e menor dependência de insumos […]