Cerrado, berço das águas do Brasil, onde brotam rios que atravessam biomas e cidades. O que acontece quando a inteligência jurídica encontra a sabedoria do campo e a ciência da restauração? Nasce um projeto que promove a restauração de nascentes no Cerrado, recarrega aquíferos, cria corredores ecológicos e inaugura um novo paradigma: a mata nativa como ativo econômico.
Este Perfil Especial apresenta a trajetória do Dr. Wilfrido Augusto Marques, advogado e produtor rural, que transformou a Fazenda Sanga Puitã, a 130 km de Brasília, em referência de regeneração ambiental. Em parceria com o Projeto Pró-Águas, do Instituto Espinhaço, sua equipe já plantou 100 mil árvores em áreas de nascentes, incorporando técnicas de manejo do solo e espécies nativas emblemáticas do Cerrado, como ipê, buriti e pequi. Este artigo conta como a estratégia — ancorada em ciência, governança e visão de longo prazo — está multiplicando água e benefícios para toda a bacia do Rio São Francisco.
“Restaurar a mata nos locais onde há nascentes é como plantar água.”
— Dr. Wilfrido Augusto Marques

Blog Ambiental • Nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra (MG): o ponto de origem das águas que sustentam ecossistemas e comunidades em todo o país
1) O contexto: crise hídrica, a urgência na restauração de nascentes no Cerrado
O Cerrado abastece oito das doze grandes bacias hidrográficas brasileiras. A expansão indevida sobre áreas de recarga, o avanço do desmatamento e práticas inadequadas de uso do solo produziram perda de infiltração, erosão e queda de vazão de rios. Não por acaso, a restauração florestal em APPs e cabeceiras tornou-se uma das soluções baseadas na natureza mais eficazes para recuperar o ciclo hidrológico.
Foi nesse cenário que o Dr. Wilfrido decidiu “plantar água”: recobrir com vegetação nativa as áreas sensíveis das nascentes, reduzir a compactação do solo e favorecer a recarga de aquíferos. A medida protege os cursos d’água nas estiagens, melhora a qualidade da água e estabiliza a paisagem produtiva. Como base de conhecimento, estudos de mapeamento e monitoramento têm indicado prioridades e métricas de sucesso, conectando ciência e gestão territorial.
2) A estratégia na Fazenda Sanga Puitã: ciência, diversidade e manejo do solo
Na Sanga Puitã, a mata nativa já ocupa cerca de 10% dos 100 mil hectares, e os plantios de nativas ganharam ritmo com o uso de insumos como hidrogel, que aumenta a retenção de água no sistema radicular em períodos críticos. A equipe organiza mutirões, envolve trabalhadores da fazenda e reintroduz espécies-chave do Cerrado, ampliando a resiliência ecológica.
Essa abordagem também se conecta com boas práticas agrícolas e conservação do solo — tema que detalhamos no Blog Ambiental em “O papel da agricultura regenerativa na recuperação de solos degradados”. Ao combinar restauração de APPs com manutenção de serviços ecossistêmicos, a fazenda cria um colchão ecológico que reduz extremos, minimiza assoreamento e protege o capital natural que sustenta a produção.
3) O valor econômico da mata nativa: água, produtividade e ativos ambientais
“Mata nativa como ativo econômico” não é slogan: é resultado de uma conta que considera água disponível, menor risco climático, qualidade do solo, potencial de ecoeficiência e, progressivamente, a remuneração por serviços ambientais. O aumento da vazão base e a melhoria da qualidade da água reduzem custos para múltiplos usuários e geram ganhos indiretos à produção — inclusive viabilizando safras consistentes mesmo em anos secos.
Esse raciocínio conversa com políticas emergentes e instrumentos financeiros verdes, temas que aprofundamos em “Finanças verdes” e em “Políticas públicas de incentivo a energia renovável”. Ao precificar natureza, abre-se espaço para contratos de PSA, créditos e parcerias em escala de bacia.
4) Parceria com o Instituto Espinhaço: o Projeto Pró-Águas e a “multiplicação das águas”
O Dr. Wilfrido integra o Projeto Pró-Águas, do Instituto Espinhaço, que organiza mapeamento de nascentes, elabora projetos executivos e articula apoio de empresas e governos para plantios em corredores ecológicos. Na prática, isso significa conectar ilhas de vegetação, ampliar a infiltração e proteger a água que aflora no Cerrado e deságua no Rio São Francisco. O projeto mira milhões de hectares e cria condições para impactos mensuráveis de recarga hídrica.

Blog Ambiental • Valdir Dias com mudas nativas para plantio em áreas prioritárias; a situação do rio é preocupante — Crédito: Claudio Gatti / VEJA.
5) Governança de bacia: quando a fazenda pensa como território
Recuperar nascentes numa fazenda é valioso; fazê-lo pensando a escala de bacia é transformador. A Sanga Puitã está no mosaico hídrico que alimenta o São Francisco; portanto, cada árvore plantada, cada APP recomposta e cada área descompactada reverbera além das porteiras. Essa visão territorial dialoga com planejamento em nível de comitês de bacia, educação ambiental e pactos setoriais — dimensões que analisamos em “Estratégias eficazes para gestão de recursos hídricos”.
6) Técnica e metodologia: seleção de espécies, nucleação e manutenção
Além de espécies de valor ecológico e cultural (ipê, buriti, pequi), a restauração de nascentes no Cerrado emprega arranjos de nucleação para acelerar sucessão, sombreamento e ciclagem de nutrientes. A manutenção — coroamento, replantio, controle de formigas, adubação orgânica — garante taxas de sobrevivência altas e custo por hectare competitivo ao longo do tempo. Para aprofundar técnicas, veja “Técnicas de restauração de ecossistemas degradados” e “Corredores ecológicos para a conservação da biodiversidade”.
7) Impactos ambientais e sociais: água, biodiversidade e renda
No curto prazo, a restauração de nascentes no Cerrado reduz erosão e retém água no solo; no médio prazo, amplia a vazão base de córregos e protege habitats. No social, gera trabalho qualificado em viveiros, plantios e monitoramento; fortalece cadeias de suprimento de sementes e mudas; engaja comunidades e escolas. Com indicadores de resultado (survival rate, infiltração, turbidez, vazão), o projeto demonstra benefícios públicos e privados.
8) Comunicação, Direito e credibilidade institucional
Como advogado, o Dr. Wilfrido traduz a restauração em segurança jurídica para parceiros e investidores, reforçando compliance ambiental e transparência. A comunicação responsável é parte do impacto — confira inspirações em “Casos de sucesso em comunicação de sustentabilidade”.

Blog Ambiental • “A água é elemento vital para a conservação”, afirma Sérgio Nésio, do Instituto Espinhaço — Crédito: Claudio Gatti / VEJA.
9) O efeito de bacia: São Francisco, infraestrutura natural e resiliência
Ao proteger nascentes e corredores, cria-se infraestrutura natural que estabiliza a vazão e reduz custos com assoreamento e enchentes. A recomposição também gera resiliência climática para cidades, agricultura e energia — especialmente para o sistema hidrelétrico da bacia do São Francisco. Essa visão de “obra da natureza” é mais barata de manter e guarda co-benefícios de biodiversidade, polinização e bem-estar.
10) Monitoramento e dados: do satélite à decisão
Projetos em escala de bacia exigem dados confiáveis — uso de solo, conectividade, recarga. Plataformas amplamente conhecidas de mapeamento e séries temporais ajudam a identificar áreas prioritárias, orientar plantios e avaliar resultados. O futuro da restauração de nascentes passa por gestão adaptativa e inteligência de dados, abrindo portas para parcerias técnico-científicas e instrumentos de financiamento baseados em performance.
Retomada: por que “plantar água” agora
Se a água é vida, nascentes são o seu coração. Cada hectare restaurado no Cerrado é uma batida que sustenta pessoas, lavouras, fauna e cidades. O exemplo de Dr. Wilfrido mostra que é possível conciliar produtividade com conservação em escala. Para quem deseja agir, o caminho começa por mapear nascentes, planejar corredores e engajar parceiros. O restante, como ele mesmo diz, é deixar a água voltar.
Conclusão: legado hídrico, jurídico e ecológico
O legado do Dr. Wilfrido Augusto Marques ultrapassa a imagem das 100 mil árvores plantadas. Ele ressignifica a própria ideia de desenvolvimento rural: conservar para produzir melhor, mensurar serviços ecossistêmicos, dar lastro jurídico às parcerias e inspirar uma rede de fazendas-berçários de água. Quando uma fazenda pensa como bacia, nascentes deixam de ser ponto no mapa e se tornam patrimônio compartilhado.
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Gostou do tema? No Blog Ambiental, exploramos conexões entre Cerrado, água e soluções baseadas na natureza. Confira leituras relacionadas e aprofunde-se:
- Estratégias eficazes para gestão de recursos hídricos
- Técnicas de restauração de ecossistemas degradados
- Corredores ecológicos para a conservação da biodiversidade
- Crise hídrica e sustentabilidade: o “ouro” do século XXI
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Perguntas Frequentes sobre restauração de nascentes no Cerrado
1. Como a restauração de nascentes no Cerrado contribui para a bacia do Rio São Francisco?
Nascentes são pontos de recarga que alimentam córregos e rios. Ao restaurar APPs com espécies nativas, melhora-se a infiltração, reduz-se a erosão e eleva-se a vazão base nas estiagens. Em escala de bacia, diversos sítios restaurados formam um efeito cumulativo: mais água limpa, menor assoreamento e maior resiliência hídrica para abastecimento humano, agricultura e energia.
2. Por que falar em “mata nativa como ativo econômico”?
Porque a vegetação nativa presta serviços que têm valor: regular fluxo hídrico, proteger o solo, diminuir riscos e custos. A conservação reduz perdas produtivas e pode gerar remuneração por serviços ambientais, seguros climáticos mais favoráveis e acesso a instrumentos de finanças verdes. Ao longo do tempo, isso se traduz em retorno econômico para quem cuida.
3. Quais são as espécies mais indicadas para restauração em nascentes do Cerrado?
Projetos costumam combinar espécies como ipês (várias cores), buriti, pequi, faveiro, jenipapo e outras adaptadas ao microclima local. A seleção considera estrutura do solo, disponibilidade hídrica e conectividade com remanescentes próximos. O objetivo é acelerar sucessão, atrair fauna dispersora de sementes e construir um dossel diverso e funcional.
4. Como medir resultados de um projeto como o Pró-Águas?
Métricas incluem taxa de sobrevivência das mudas, cobertura do solo, infiltração, turbidez, temperatura e vazão mínima de cursos d’água. Sensoriamento remoto e monitoramento em campo complementam as leituras. Com dados consistentes, é possível pagar por performance em PSA e demonstrar benefícios locais e de bacia.
5. Pequenos e médios produtores podem replicar a experiência?
Sim. A restauração de nascentes no Cerrado tem alto benefício por custo e pode começar com mapeamento participativo, priorização de APPs, plantios nucleados e manutenção nos dois primeiros anos. Parcerias com viveiros, órgãos ambientais e comitês de bacia ajudam a escalar ações e acessar editais e PSA, tornando o projeto financeiramente viável.
Fontes e leituras recomendadas
- Reportagem da VEJA: “Mata nativa vira ativo econômico em projeto que recupera nascentes do São Francisco”
- Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF): cbhsf.org.br
- MapBiomas – Dados de uso e cobertura da terra: mapbiomas.org
Com informações da Revista Veja (Edição Negócios nº18, setembro de 2025), Instituto Espinhaço e acervo do Dr. Wilfrido Augusto Marques.

6 Comentários
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