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Blog Ambiental • Astronauta segurando cartaz com a frase “O homem esgotou esse planeta”, simbolizando os limites planetários da Economia da Cooperação no Antropoceno

A Economia da Cooperação no Antropoceno

Fundamentos biofísicos, institucionais e éticos da Sustentabilidade Forte

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O Antropoceno expôs um limite que já não pode ser ignorado na Economia da Cooperação no Antropoceno: a economia global ultrapassou a capacidade de suporte do planeta. Crises climáticas sucessivas, colapso da biodiversidade, escassez hídrica e instabilidade alimentar não são eventos isolados, mas sintomas de um modelo econômico que trata a natureza como estoque substituível e infinito.

Nesse cenário, cresce a relevância de abordagens que rompem com a lógica dominante da competição e da eficiência de curto prazo. A Economia da Cooperação, articulada a partir da Sustentabilidade Forte, emerge como uma chave interpretativa e institucional para enfrentar os desafios sistêmicos do nosso tempo.

É nesse terreno que se insere o artigo de João Lobato, publicado originalmente no Uruatapera. O texto a seguir é reproduzido integralmente, constituindo o núcleo conceitual deste artigo. A opção editorial por manter o texto intacto reconhece sua densidade analítica e sua contribuição estrutural ao debate sobre Sustentabilidade Forte, bens comuns e governança no Antropoceno.

Quando a economia ignora os limites da biosfera, a cooperação deixa de ser escolha política e passa a ser condição física de sobrevivência.

“A cooperação não é um ideal abstrato: é um princípio organizador da vida e um requisito para a governança dos bens comuns no Antropoceno.”

O esgotamento do paradigma competitivo

O Antropoceno explicitou o esgotamento de um modelo econômico baseado na competição permanente, na substituição irrestrita do capital natural e na ilusão de crescimento infinito. A recorrência de eventos climáticos extremos, o colapso da biodiversidade e a intensificação de conflitos socioambientais revelam que a economia opera além dos limites físicos do planeta, ignorando tanto a termodinâmica quanto a complexidade dos sistemas vivos. Esse diagnóstico dialoga diretamente com debates já consolidados no Blog Ambiental sobre economia circular, descarbonização, justiça climática e inteligência coletiva aplicada à governança ambiental. Nesse contexto, a cooperação deixa de ser um valor normativo desejável e passa a se configurar como requisito biofísico e institucional para a própria continuidade da vida econômica.

A Economia da Cooperação no Antropoceno: Fundamentos Biofísicos, Institucionais e Éticos da Sustentabilidade Forte

Autor: João Lobato

A crise socioambiental que marca o Antropoceno exige uma revisão profunda das bases conceituais que estruturaram a relação entre sociedade e natureza ao longo dos últimos dois séculos. A interpretação reducionista do darwinismo, frequentemente filtrada por leituras malthusianas e spencerianas, consolidou a ideia de que a competição seria o motor fundamental da evolução e, por extensão, do progresso econômico. Tal visão permeou a economia neoclássica e contribuiu decisivamente para a formulação da Sustentabilidade Fraca, um paradigma que assume a substitutibilidade ampla entre capital natural e capital produzido. Nesse arcabouço, acreditava-se que o avanço tecnológico seria capaz de compensar a degradação ambiental desde que as chamadas falhas de mercado fossem adequadamente corrigidas, sobretudo por meio da internalização de externalidades. É nesse contexto que emergem as contribuições de Arthur Cecil Pigou e Ronald Coase, dois autores centrais da economia do bem-estar, cujas teorias moldaram profundamente o tratamento econômico dos problemas ambientais.

Pigou identificou que muitas atividades produtivas geravam prejuízos a terceiros que não eram considerados nas decisões privadas. Esses efeitos externos — as externalidades negativas — representavam custos sociais não incorporados ao cálculo individual. Para Pigou, caberia ao Estado corrigir essa distorção por meio de impostos específicos, que elevassem o custo privado até igualá-lo ao custo social. Esses chamados impostos pigouvianos tornaram-se o instrumento clássico da política ambiental em estruturas que privilegiam o papel regulador do Estado. Contudo, Coase ofereceu uma crítica contundente ao modelo pigouviano ao argumentar que o cerne do problema não residia na existência de externalidades, mas na indefinição dos direitos de propriedade. Segundo o Teorema de Coase, se tais direitos forem bem definidos e os custos de transação forem suficientemente baixos, as partes afetadas negociarão entre si até alcançar uma solução eficiente, independentemente da distribuição inicial desses direitos. Ambas as abordagens, embora poderosas, revelam suas limitações quando confrontadas com bens ambientais que não podem ser repartidos ou convertidos em propriedade privada, como a estabilidade do clima, os grandes ciclos biogeoquímicos ou os serviços essenciais da biosfera.

A narrativa da competição inevitável encontrou sua expressão mais influente na metáfora da “Tragédia dos Comuns”, formulada por Garrett Hardin em 1968. Hardin postulava que indivíduos racionais, ao explorar um recurso comum, tenderiam a maximizar seus benefícios privados, conduzindo inevitavelmente ao colapso coletivo. Diante dessa suposta inevitabilidade, apenas a privatização integral dos recursos ou o controle estatal rígido poderiam impedir a tragédia. Essa leitura, marcada por um viés individualista, permeou políticas públicas e justificou a expansão de regimes de propriedade privada como forma de proteção ambiental. No entanto, a própria biologia e as ciências sociais ofereceram uma crítica substantiva a essa interpretação unidimensional.

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Pyotr Kropotkin foi um dos primeiros a desafiar a leitura exclusivamente competitiva da evolução ao demonstrar, em seus estudos sobre populações animais, que a cooperação e o apoio mútuo eram elementos tão importantes quanto a competição para a sobrevivência em ambientes adversos. Sua obra, embora marginalizada por décadas, antecipou debates contemporâneos sobre interdependência ecológica. A biologia evolutiva foi transformada ainda mais profundamente pela contribuição de Lynn Margulis, cuja Teoria da Endossimbiose Seriada mostrou que as células eucarióticas — base da vida complexa — surgiram da cooperação simbiótica entre organismos procariontes distintos, e não da competição predatória. A cooperação, portanto, deixou de ser vista como exceção e passou a ser reconhecida como força estruturante da complexificação da vida.

No campo institucional, a crítica definitiva ao determinismo de Hardin veio com Elinor Ostrom. Em sua obra monumental Governing the Commons, publicada em 1990, Ostrom demonstrou empiricamente que comunidades ao redor do mundo são capazes de criar e manter instituições robustas para o uso sustentável de recursos comuns, como sistemas de irrigação, pesqueiros e florestas comunitárias. Ela identificou princípios recorrentes entre esses sistemas — como fronteiras claramente definidas, regras de uso alinhadas às condições locais, monitoramento por parte dos próprios usuários, sanções graduais e mecanismos acessíveis de resolução de conflitos — que mostram que a governança dos commons não depende apenas do Estado ou do mercado. A contribuição de Ostrom desloca o debate da dicotomia entre propriedade privada e controle estatal para a qualidade das instituições, da confiança e da ação coletiva.

Seu trabalho também mostrou que os arranjos cooperativos são mais eficazes quando organizados de forma polinível, isto é, articulando diferentes escalas de governança que vão do local ao global. As distinções entre Sustentabilidade Fraca, Média e Forte refletem concepções distintas sobre como governar os commons ambientais. A Sustentabilidade Fraca, influenciada pelos modelos de Pigou e Coase, parte da premissa de que os recursos naturais podem ser substituídos por tecnologia ou por capital construído. Já a Sustentabilidade Média reconhece parcialmente limites ecológicos e admite arranjos híbridos de governança, combinando instrumentos estatais, mecanismos de mercado e formas comunitárias de gestão.

Entretanto, é a Sustentabilidade Forte que oferece o quadro conceitual mais consistente com a natureza biofísica da crise contemporânea. Ela reconhece que uma parte do capital natural é crítica e insubstituível, conforme proposto por Pearce, Markandya e Barbier, e que os limites planetários definidos por Rockström representam fronteiras biofísicas intransponíveis para a manutenção das condições que sustentam a vida. A estrutura dos Limites Planetários traduz o conceito de Capital Natural Crítico em variáveis mensuráveis, como a concentração de CO₂ na atmosfera, o nível de perda de biodiversidade, a integridade da camada de ozônio e as alterações nos ciclos do nitrogênio e do fósforo.

Ultrapassar esses limites representa um risco estrutural para a estabilidade do sistema terrestre e, portanto, para a própria continuidade da economia. A esses elementos acrescenta-se a contribuição de Georgescu-Roegen, cuja Lei da Entropia estabelece que toda atividade econômica depende de fluxos de energia e matéria de baixa entropia que, ao serem transformados em produção, geram resíduos irreversíveis de alta entropia. O planeta, portanto, dispõe de um estoque físico limitado de materiais concentrados, minerais e combustíveis fósseis, configurando o que o autor denomina de commons entrópico. Governar esse commons significa estabelecer limites para o throughput material e energético da economia, o que só pode ser realizado por meio de acordos cooperativos de longo prazo entre sociedades e gerações.

Quando esses conceitos são integrados à teoria da governança de Ostrom, torna-se evidente que a transição para a Sustentabilidade Forte exige uma arquitetura institucional polinível capaz de articular diferentes escalas de decisão. Nenhum país, isoladamente, possui capacidade para gerir variáveis planetárias; e, ao mesmo tempo, nenhuma governança global será eficaz se não estiver ancorada em instituições locais legítimas e adaptadas às condições específicas de cada território. A justiça climática emerge, nesse contexto, não apenas como princípio ético, mas como condição institucional para a cooperação global. A distribuição desigual do uso passado do commons entrópico — expressa na dívida ecológica do Norte global — mina a confiança necessária entre os países para construir acordos internacionais robustos. Do mesmo modo, o papel do Estado e do mercado deve ser reinterpretado: o Estado torna-se um facilitador da auto-organização, enquanto o mercado pode funcionar como instrumento complementar dentro de regras coletivamente acordadas.

A síntese de todos esses elementos sugere que a passagem para a Sustentabilidade Forte representa uma transformação paradigmática. Não se trata apenas de corrigir falhas de mercado, mas de reconhecer que o sistema econômico é um subsistema aberto inserido numa biosfera finita e regido por leis físicas inegociáveis. A cooperação, longe de ser um ideal romântico, é um princípio organizador da vida e um requisito para a governança eficaz dos commons globais. Os limites planetários delineiam o campo de jogo; a termodinâmica estabelece as regras; o capital natural crítico define os recursos fundamentais; e Ostrom revela os mecanismos institucionais capazes de sustentar a cooperação necessária para enfrentar os desafios do Antropoceno. O fracasso em construir instituições que internalizem esse conjunto de lições não resultará de uma tragédia inevitável, mas de uma falha coletiva de imaginação institucional diante dos maiores desafios já enfrentados pela humanidade.

Nota de Rodapé Presto aqui minha homenagem e gratidão ao mestre, parceiro e amigo saudoso, Professor João Salvador Furtado, cuja concepção do modelo “Ecopolo de Desenvolvimento Sustentável” me abriu, pela primeira vez, as portas dos “bens comuns” e de suas delicadas peculiaridades de governança. Da mesma forma, rendo meu reconhecimento ao amigo e Professor Biagio Fernando Giannetti, que, em seu Laboratório de Produção e Meio Ambiente (LaProMA), apresentou-me o conceito fundamental de Sustentabilidade Forte e a essência da “eMergia”, no início da década de 2000, há mais de 20 anos.

Fonte original: Uruatapera – A Economia da Cooperação no Antropoceno

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Quando a cooperação deixa de ser opção e passa a ser estrutura

Manter o artigo “Economia da Cooperação no Antropoceno” de João Lobato no centro deste debate não é apenas uma escolha editorial, mas um posicionamento conceitual. O que ele evidencia, com rigor biofísico e institucional, é que o colapso ambiental contemporâneo não decorre da ausência de tecnologias ou de instrumentos econômicos, mas da persistência de um modelo de governança incapaz de lidar com sistemas complexos, interdependentes e finitos. A Sustentabilidade Forte, nesse sentido, não propõe ajustes marginais: ela exige uma ruptura com a lógica da substituibilidade ilimitada e a reconstrução das instituições que organizam o uso dos bens comuns.

Cooperar, portanto, não é um gesto moral voluntarista, nem um adorno discursivo do desenvolvimento sustentável. É infraestrutura invisível da própria economia, condição para a estabilidade climática, para a justiça intergeracional e para a viabilidade de qualquer projeto civilizatório no Antropoceno. Onde faltam instituições capazes de sustentar a cooperação no longo prazo, o que se observa não é tragédia inevitável, mas fracasso político e imaginação institucional insuficiente diante de limites que já foram ultrapassados.

Por que este debate é central para o futuro da sustentabilidade

A leitura do artigo “Economia da Cooperação no Antropoceno” de João Lobato reforça uma constatação recorrente em análises do Blog Ambiental: não existe transição ecológica viável sem cooperação institucional, sem reconhecimento dos limites planetários e sem revisão profunda do papel do Estado, do mercado e da sociedade civil. Temas como ESG, políticas públicas ambientais, inovação orientada à sustentabilidade e resolução de conflitos ambientais só fazem sentido quando inseridos em uma lógica cooperativa de longo prazo.

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Perguntas essenciais sobre a Economia da Cooperação no Antropoceno

O que define a Economia da Cooperação no Antropoceno e por que ela se tornou indispensável?

A Economia da Cooperação no Antropoceno parte do reconhecimento de que a economia é um subsistema inserido em uma biosfera finita, regida por limites biofísicos intransponíveis.
Diferentemente dos modelos baseados na competição e na substituição ilimitada do capital natural, essa abordagem entende que problemas como mudança climática, colapso da biodiversidade e escassez de recursos exigem coordenação coletiva, instituições robustas e acordos de longo prazo.
A cooperação deixa de ser um valor normativo e passa a ser condição estrutural para a continuidade da vida econômica e social.

Por que a Sustentabilidade Forte é o arcabouço mais consistente para o Antropoceno?

A Sustentabilidade Forte reconhece que parte do capital natural é crítica e insubstituível, não podendo ser compensada por tecnologia ou capital construído. No Antropoceno, essa distinção torna-se decisiva, pois os limites planetários impõem restrições reais ao funcionamento da economia. Ao contrário da Sustentabilidade Fraca, que aposta em ajustes marginais de mercado, a Sustentabilidade Forte exige mudanças institucionais profundas, redefinindo padrões de produção, consumo e governança dos bens comuns.

Qual é o papel dos bens comuns na Economia da Cooperação no Antropoceno?

Os bens comuns, como o clima, a biodiversidade, a água e os ciclos biogeoquímicos, ocupam posição central na Economia da Cooperação no Antropoceno porque sua degradação gera riscos sistêmicos globais. Esses bens não podem ser adequadamente geridos por mecanismos exclusivamente privados ou por controles centralizados rígidos. Sua governança depende de instituições cooperativas, capazes de articular regras, monitoramento e sanções em múltiplas escalas, do local ao global.

Por que soluções baseadas apenas em mercado ou tecnologia são insuficientes?

Embora instrumentos de mercado e inovações tecnológicas sejam importantes, eles não resolvem, por si só, problemas estruturais do Antropoceno. A lógica de preços não captura integralmente valores ecológicos críticos, nem responde à irreversibilidade imposta pela entropia.

A Economia da Cooperação no Antropoceno demonstra que, sem instituições capazes de limitar o uso dos bens comuns e coordenar interesses conflitantes, essas soluções tendem a adiar o colapso, e não a evitá-lo.

O que está em jogo se a cooperação institucional falhar no Antropoceno?

A falha da cooperação institucional implica a continuidade da ultrapassagem dos limites planetários, ampliando riscos de colapsos climáticos, alimentares, econômicos e sociais. Esse cenário não representa uma tragédia inevitável, mas o resultado de escolhas políticas e institucionais inadequadas. A Economia da Cooperação no Antropoceno deixa claro que o maior risco não é a falta de conhecimento ou de soluções, mas a incapacidade coletiva de construir instituições compatíveis com a realidade biofísica do planeta.

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