Quem observa o avanço da agenda climática global nota um movimento crescente rumo a combustíveis de baixa emissão. Mas há um ponto decisivo que poucos têm acompanhado com atenção: o retorno estratégico do etanol como protagonista da transição energética — especialmente no Brasil. A questão que se impõe é direta e provocadora: estamos finalmente diante do momento histórico em que o etanol brasileiro alcança o reconhecimento internacional que sempre mereceu?
O cenário atual, impulsionado pelas ambições climáticas e pelas pressões por descarbonização, recoloca o etanol no centro do debate — não apenas como um combustível alternativo, mas como um ativo geopolítico, econômico e ambiental. Nesta edição especial da série “Arnaldo na COP-30”, o Blog Ambiental aprofunda as análises e traz a visão de um dos parlamentares mais influentes da agenda de biocombustíveis no Brasil.O avanço do etanol, seu papel na matriz energética do futuro e os impactos diretos na descarbonização global.
“O desafio climático exige soluções de grande escala — e o etanol brasileiro surge como uma das mais eficazes.”

Deputado Federal Arnaldo Jardim durante seminário para discutir propostas de regulamentação da Reforma Tributária, em 22/2/2024. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Etanol: da história ao protagonismo climático — uma jornada que ganha força na COP-30
O Brasil não apenas domina a tecnologia do etanol; ele moldou uma das cadeias produtivas mais eficientes e sustentáveis do planeta. Em meio à corrida global por biocombustíveis, o país reaparece como protagonista ao oferecer algo raro: escala, eficiência e uma base científica consolidada.
Neste artigo, você encontrará seis blocos de análise que contextualizam o papel do etanol no Brasil e no mundo, além do texto central do deputado Arnaldo Jardim, mantido na íntegra logo abaixo.

Blog Ambiental • A energia que nasce da biomassa e da natureza move a transição energética. (Imagem de Freepik)
Etanol se consolida
Por Arnaldo Jardim*
Com a aprovação do PL 4516/23, do Combustível do Futuro, que tive a honra de relatar, o percentual obrigatório de adição de etanol à gasolina poderá chegar a 35%.
Não é de hoje que o Brasil utiliza o etanol como combustível. Na década de 1920, por exemplo, um carburante conhecido como Azulina – 85% de etanol e 25% de éter-, chegou a vender 450 mil litros por ano na região Nordeste. Uma década depois, na Revolução de 30, um combustível à base de álcool e óleo de mamona foi utilizado em locomotivas e aviões pelos insurgentes paulistas. Durante a segunda guerra mundial, o biocombustível substituiu boa parte da gasolina consumida no país.
O verdadeiro impulso, entretanto, veio com a 1ª crise do petróleo, época na qual importávamos 70% do óleo consumido. Diante de um possível apagão energético, o Brasil resolveu estimular a produção e o uso do etanol – nascia o Proálcool. Um programa pioneiro no mundo, dada a sua magnitude, e que se tornou, até hoje, a melhor alternativa sustentável para substituir os combustíveis fósseis.
É certo que o programa passou por altos e baixos. Na década de 1980, era um sucesso, com 60% dos veículos vendidos eram movidos a álcool. Logo depois, com a queda dos preços do petróleo, interesse do mercado voltou-se para automóveis à gasolina e o biocombustível foi praticamente abandonado. O ressurgimento veio a partir de 2003, com a chegada da tecnologia flex e, principalmente, na esteira da discussão mundial a respeito das mudanças climáticas, que alterou o olhar sobre a política energética mundial.
Se antes, o importante era garantir um suprimento de energia em quantidade suficiente e a preços acessíveis, a discussão sobre o aquecimento global inseriu, nessa equação, a observância obrigatória dos impactos ambientais de cada fonte, de cada combustível, especialmente as emissões dos Gases de Efeito Estufa – GEE’s. E nesse contexto, o Etanol mostra o seu potencial.
Teste realizado pela Stellantis, em parceria com a Bosch, comparou 4 fontes distintas de energia utilizados por um automóvel em um percurso simulado de 240 quilômetros. Considerando o ciclo de vida completo do veículo, também conhecido como do “berço ao túmulo”, o carro à gasolina (E27) emitiu 60,64 kg CO2eq, enquanto o carro 100% elétrico carregado com energia europeia, 30,41 kg CO2eq.
O carro 100% a etanol emitiu 25,79 kg CO2eq, perdendo, nesse comparativo, apenas para um carro 100% elétrico alimentado com energia brasileira (21,45 kg CO2eq.), cuja matriz é reconhecida pela elevadíssima participação de fontes renováveis.
Essa redução pode ser ainda maior com a utilização do Etanol Celulósico, conhecido como de 2ª geração (E2G), produzido a partir de resíduos da produção, especialmente o bagaço da cana. Se o E1G reduz as emissões de GEE’s em 60% quando comparado à gasolina, o E2G é ainda mais limpo, reduzindo essas emissões para patamares acima de 90%. E tudo isso sem ocupar um único hectare a mais para o plantio.
Esse poder descarbonizante pode ser aproveitado ainda em outros modais de transporte. Obrigada a reduzir as emissões em 50% até 2050, a aviação civil aposta todas as suas fichas no Combustível Sustentável de Aviação, ou SAF (da sigla em inglês Sustainable Aviation Fuel) e uma das principais rotas de produção é a Alcohol-to-Jet, ou AtJ, que utiliza o biocombustível como matéria prima. O uso do SAF pode reduzir a pegada de carbono das operações aéreas entre 70% e 90% em comparação ao uso do querosene fóssil.
Na cadeia produtiva do Etanol ainda podem ser gerados o Biometano, que tem especial vocação para mitigar as emissões no setor de carga pesada e de equipamentos agrícolas; o Diesel Verde, um substituto drop-in do diesel fóssil; o combustível marítimo, ou biobunker; e, principalmente, o hidrogênio, considerado o vetor energético do futuro e que alimentará as células de combustíveis para além de 2050.
Não por acaso, países estão incluindo o Etanol em suas estratégias de combate às mudanças climáticas, como, por exemplo, a Índia, onde a percentagem do anidro na gasolina passará dos atuais 10% para 20% em 2024. Já são 60 os países que adotam mistura obrigatória nos combustíveis.
No Brasil, o aumento da mistura será feito de forma gradual, com previsibilidade e transparência, sempre precedido de avaliação técnica da qual participe a indústria automotiva, como o estudo que será conduzido pelo grupo de trabalho, criado pela Portaria nº 59/MME, para avaliar a viabilidade de aumentar dos atuais 27% para 30%. O principal é garantir segurança aos consumidores.
O Etanol está se consolidando como uma das principais opções para a mobilidade sustentável do futuro.
*Arnaldo Jardim é deputado federal, vice-presidente da Frente Parlamentar Agropecuária e relator do PL do combustível do Futuro.

Blog Ambiental • Fotografia de uma mulher abastecendo um veículo com etanol, representando Blog Ambiental • O etanol segue como alternativa acessível e limpa para o dia a dia dos brasileiros. (Imagem de Freepik)
O Brasil está pronto para liderar a descarbonização global?
Com base na análise de Arnaldo Jardim, fica evidente que o etanol vai muito além de um combustível alternativo. Ele simboliza uma política de Estado, uma oportunidade econômica e uma estratégia de inserção internacional.
Para ampliar a reflexão, o Blog Ambiental destaca caminhos essenciais para que o Brasil lidere o debate global:
- Convergência entre agricultura, energia e indústria — Agro Brasileiro: Exemplo de Sustentabilidade
- Integração ao mercado de carbono — RenovaBio e CBIOs
- SAF e etanol na aviação — O Etanol e o SAF no Combustível do Futuro
- Biometano e transporte pesado — Biometano: A Solução Sustentável para Transporte e Gestão de Resíduos
- Diplomacia climática e COP-30 — Os Biocombustíveis na COP-30
- Aviação sustentável brasileira — Brasil na Liderança da Aviação Sustentável
- Hidrogênio como vetor energético — Hidrogênio e Sustentabilidade

Blog Ambiental • A cana-de-açúcar é o coração do biocombustível mais eficiente do mundo. (Imagem de Freepik)
Etanol, tecnologia e futuro
Se o mundo busca soluções reais para uma economia de baixo carbono, o etanol brasileiro surge como alternativa sólida, escalável e comprovada. Da matriz elétrica limpa ao potencial do E2G e ao protagonismo no SAF, o Brasil tem nas mãos um vetor estratégico para moldar a mobilidade do futuro.
A mensagem é clara: não há transição energética global sem o papel do etanol — e o Brasil será peça central dessa jornada.
Perguntas e Respostas sobre “O Etanol se Consolida”
1. O etanol realmente reduz as emissões de gases de efeito estufa?
Sim. Estudos mostram que o etanol de primeira geração reduz em média 60% das emissões de GEE quando comparado à gasolina. Já o etanol de segunda geração (E2G), produzido a partir do bagaço da cana, pode superar 90% de redução. Essa vantagem ocorre porque o ciclo de vida do etanol é muito mais limpo, aproveitando biomassa renovável e processos menos intensivos em carbono. Por isso, ele é considerado um dos biocombustíveis mais eficientes do mundo.
2. Qual é a diferença entre o etanol comum (E1G) e o etanol de segunda geração (E2G)?
O E1G é o etanol tradicional, obtido da fermentação da sacarose presente na cana. Já o E2G é produzido a partir de resíduos agrícolas — principalmente o bagaço e a palha — sem a necessidade de expandir áreas cultivadas. A tecnologia permite aproveitar celulose e hemicelulose, resultando em um biocombustível ainda mais limpo. O E2G pode reduzir mais de 90% das emissões de GEE, sendo crucial para a descarbonização profunda.
3. Como o etanol se conecta ao avanço do SAF (Combustível Sustentável de Aviação)?
O etanol é matéria-prima essencial para a rota Alcohol-to-Jet (AtJ), uma das mais promissoras para produção de SAF. A aviação mundial precisa reduzir emissões em até 90% e vê no etanol brasileiro uma solução escalável e de baixo custo. Com infraestrutura robusta e tecnologia madura, o Brasil tem potencial para se tornar líder global no fornecimento de SAF baseado em etanol. Esse fator deve ganhar destaque na COP-30.
4. O aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina é seguro para os veículos?
Sim. O aumento gradual da mistura — hoje em 27% e podendo chegar a 35% — passa por estudos técnicos conduzidos pelo Ministério de Minas e Energia e pela indústria automotiva. Testes mostram que motores modernos suportam e até se beneficiam da maior presença de etanol, que possui maior octanagem e queima mais limpa. A previsibilidade regulatória garante segurança ao consumidor e estabilidade ao mercado.
5. Por que o etanol brasileiro tem papel estratégico na COP-30?
Porque o Brasil reúne vantagens únicas: matriz elétrica limpa, produtividade agrícola elevada, tecnologia consolidada e experiência histórica com biocombustíveis. Esses fatores permitem uma oferta de etanol escalável, de baixa emissão e competitiva no mercado internacional. Na COP-30, o etanol aparece como solução real para descarbonizar transportes — incluindo carros, caminhões e aviação — reforçando o protagonismo brasileiro.
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4 Comentários
Um mandado de descarbonização será fundamental para que o etanol atinja a escala necessária para atender toda essa demanda.
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