A discussão sobre o papel da ciência hoje atravessa um momento decisivo: como preservar a missão social da pesquisa em tempos de pressão por produtividade e métricas? Este artigo contextualiza a crítica de Afonso Peche Filho e amplia o debate com propostas práticas, mantendo o texto original central e inalterado.A leitura do ensaio a seguir convida a repensar prioridades institucionais e sociais.
É um chamado direto para refletirmos sobre qual ciência queremos defender.
O entardecer da pesquisa é um alerta ético: métricas sem sentido social podem apagar a verdadeira função transformadora da ciência.
O Entardecer da Pesquisa
por Afonso Peche Filho*
O cenário da ciência contemporânea revela uma contradição inquietante: enquanto parte dos pesquisadores ainda se mantém fiel à missão social da pesquisa, entendendo-a como prática ética, formadora de conhecimento crítico e voltada ao bem comum, cresce, paralelamente, um modelo de cientista moldado pelas pressões produtivistas. Esse novo perfil, muitas vezes, se coloca a serviço de resultados rápidos, de métricas numéricas e de interesses de setores que já dominam o conhecimento consolidado, distanciando-se do compromisso histórico da ciência com a sociedade.
Durante décadas, a pesquisa científica foi conduzida por homens e mulheres que viam sua atividade não como um ofício isolado, mas como um compromisso coletivo. O trabalho paciente em campo ou em laboratório tinha como horizonte a transformação social: melhorar práticas agrícolas, desenvolver remédios acessíveis, compreender ecossistemas e prevenir colapsos ambientais. Esse ethos se sustentava em valores de integridade, persistência e responsabilidade social. O pesquisador era guardião de um pacto silencioso: investigar para servir.
Esses velhos cientistas, muitas vezes sem recursos ou reconhecimento imediato, construíram alicerces que permitiram a consolidação de áreas inteiras do saber. Sua grandeza estava menos na visibilidade de seus nomes e mais na solidez de seus resultados, que sustentaram políticas públicas, enriqueceram currículos acadêmicos e abriram caminhos para novas gerações.
Entretanto, sobre essa tradição repousa agora a sombra de um novo paradigma. O produtivismo acadêmico alimentado por sistemas de avaliação centrados em números de publicações, índices de impacto e rankings internacionais, alterou radicalmente a paisagem da pesquisa. O valor de um cientista passou a ser medido mais pela quantidade de artigos produzidos em curto espaço de tempo do que pela relevância social ou pela profundidade de suas descobertas.
Nesse contexto, consolidou-se a figura do pesquisador moderno, apto a atender às demandas de setores já estabelecidos, que financiam projetos e exigem resultados alinhados a seus interesses. O conhecimento passa a ser tratado como mercadoria, e a ciência se submete a uma lógica de mercado. O risco é que a pesquisa deixe de questionar, de propor alternativas, de olhar para os problemas invisíveis da sociedade, e se torne apenas reprodutora de verdades convenientes.

Blog Ambiental • Toda nova ideia nasce da paciência da pesquisa.
Esse entardecer da pesquisa revela um crepúsculo ético: a passagem de uma ciência que iluminava horizontes coletivos para outra que se contenta em reforçar estruturas já existentes. Ao privilegiar métricas, silencia-se a inquietação crítica, a busca pela justiça social e a coragem de enfrentar interesses consolidados. O cientista que ousa sair desse padrão corre o risco de ser marginalizado, visto como anacrônico ou improdutivo.
Assim, temas urgentes, como mudanças climáticas, segurança alimentar, justiça social ou conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos, podem receber menos atenção, não por falta de relevância, mas porque não rendem o número desejado de publicações rápidas ou não atraem financiamento imediato. O preço é pago pela sociedade, que perde a potência transformadora da ciência.
Apesar desse cenário, o entardecer não precisa significar escuridão definitiva. O que se coloca é um chamado à reflexão: será que a comunidade científica aceitará reduzir-se a uma engrenagem de produtividade, ou terá a coragem de reivindicar novamente o sentido social da pesquisa?
O desafio é recuperar a dignidade do trabalho científico como prática ética e transformadora. Isso não significa negar os avanços trazidos pela modernização, mas reorientá-los: métricas podem ser úteis, desde que não sejam o fim em si mesmas; parcerias com o setor privado podem ser legítimas, desde que não aprisionem o conhecimento em moldes pré-definidos.
A ciência precisa voltar a olhar para o bem comum. Precisa sustentar sua legitimidade não apenas em números, mas em sua capacidade de responder às necessidades da sociedade, de antecipar crises, de propor alternativas criativas e de manter viva a inquietação crítica.
“O entardecer da pesquisa” não é apenas uma metáfora temporal; é um alerta ético. A ciência que se deixa aprisionar pelo produtivismo e pelo conforto do conhecimento consolidado corre o risco de perder sua alma. Recuperar o espírito dos velhos pesquisadores, comprometidos, pacientes, críticos e socialmente engajados, é fundamental para que não atravessemos a noite da irrelevância, mas sim para que possamos vislumbrar uma nova aurora, onde o conhecimento volte a iluminar o caminho coletivo da humanidade.
*Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.
Fonte original: APQC
Análise complementar
O texto de Afonso dialoga com debates internacionais sobre produtivismo acadêmico e seus impactos sobre a
ética científica. Diversos estudos alertam para a perda de qualidade, o esvaziamento do papel social da ciência
e a pressão por publicações rápidas — movimentos que reduzem a capacidade de inovação, crítica e transformação.

Blog Ambiental • O conhecimento nasce do encontro entre humanos, natureza e cosmos.
Essa reflexão é essencial para temas ambientais, onde pesquisas de campo, análises de longo prazo e metodologias
participativas são fundamentais para a construção de soluções sustentáveis.
Leituras complementares no Blog Ambiental
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- Inteligência Artificial e Sustentabilidade
- Batalha científica pela sustentabilidade
- O Valor Intrínseco de um Rio
Perguntas Frequentes
1. O que é produtivismo acadêmico?
É a pressão para que pesquisadores produzam grande quantidade de artigos, priorizando métricas numéricas.
Isso pode prejudicar investigações profundas e reduzir relevância social da pesquisa.
2. Por que isso afeta áreas ambientais?
Pesquisas ambientais geralmente exigem tempo longo, observação em campo e replicação — tudo o que vai contra
exigências de produtividade rápida.
3. Como melhorar os sistemas de avaliação?
Incluindo impacto social, contribuição para políticas públicas, extensão e ética científica, além de métricas
qualitativas e quantitativas equilibradas.
4. O que pesquisadores podem fazer?
Valorizar pesquisas aplicadas, manter autonomia intelectual, promover divulgação científica e formar redes de
cooperação com comunidades.
5. Como o público pode ajudar?
Apoiando ciência local, cobrando financiamento adequado e prestigiando trabalhos que geram impacto real.
Conclusão
O ensaio de Afonso Peche Filho é um chamado ético para reorientar a ciência rumo ao bem comum.
Resgatar o propósito social da pesquisa não significa negar a modernização, mas equilibrar métricas
com relevância, impacto e responsabilidade.
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5 Comentários
“O Entardecer da Pesquisa” nos alerta sobre um cenário preocupante, mas ele não precisa ser o fim. A resposta para essa estagnação está no reconhecimento de que a inovação, a pesquisa e o desenvolvimento são a melhor resposta para um futuro sustentável. Exploramos esse caminho em https://blogambiental.com.br/inovacao-pesquisa-e-desenvolvimento-a-melhor-resposta-para-um-futuro-sustentavel/, onde defendemos que é precisamente o investimento sistemático em P&D&I que gera as soluções de base científica para os desafios ambientais e sociais mais urgentes. Reacender a chama do investimento e do interesse pela ciência é, portanto, a maneira mais eficaz de não apenas evitar o entardecer, mas de assegurar um novo amanhecer para a pesquisa no Brasil.
Exatamente. “O Entardecer da Pesquisa” aponta para um risco sistêmico de não enxergarmos a ciência como um bem valioso em si mesmo.
Essa mesma ideia de valor intrínseco é aplicável aos ecossistemas. É por isso que o artigo https://blogambiental.com.br/o-valor-intrinseco-de-um-rio/ faz uma reflexão crucial: é urgente reconhecer que um rio, uma floresta ou uma linha de pesquisa possuem um valor que transcende a mera utilidade imediata. Seu valor está na sua existência, na sua história e no conhecimento que geram.
O declínio da pesquisa, portanto, não é só uma questão orçamentária. É um sintoma do mesmo pensamento curto que não valoriza um rio até que ele seque ou que não enxerga o valor de um estudo até que uma crise nos obrigue a buscá-lo. Repensar essa lógica é central para construir um modelo de desenvolvimento que proteja, ao mesmo tempo, nossos ecossistemas naturais e nosso ecossistema de inovação.
[…] solidão científica é um sintoma silencioso da crise contemporânea da ciência. Muitos pesquisadores percorrem diariamente laboratórios vazios, instituições fragilizadas e […]
[…] desafios ambientais da atualidade. Com a implementação adequada dessas soluções, é possível promover um equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental, contribuindo para um futuro mais sustentável para as próximas […]
[…] O Blog Ambiental assume, a partir deste texto, o compromisso com um pensamento ambiental que não evita o incômodo. Porque enfrentar a crise exige mais do que boas intenções: exige coragem intelectual, clareza política e a disposição de atravessar o desgaste do próprio sistema de produção de conhecimento. […]