O colapso não chega com sirenes nem com anúncios oficiais. Pelo contrário, ele se instala nos detalhes: cortes silenciosos, decisões administrativas opacas, deslegitimação gradual do conhecimento técnico e normalização do improviso. Com o tempo, quando o dano finalmente se torna visível, a ciência já não sustenta o país — e, ao mesmo tempo, o país já não sustenta a ciência. Diante desse cenário, portanto, o que resta após o colapso?
No Brasil e em boa parte do mundo, o debate sobre o futuro da pesquisa científica deixou de se restringir à academia e, progressivamente, passou a ocupar o centro das disputas políticas, econômicas e simbólicas. Nesse contexto ampliado, o que está em jogo não se limita a orçamento ou infraestrutura, mas envolve, sobretudo, a própria ideia de ciência como construção coletiva orientada pelo interesse público.
Este artigo propõe uma reflexão profunda sobre o que permanece depois do colapso institucional da ciência — e por que, diante desse cenário, essa discussão se torna decisiva para qualquer projeto de futuro sustentável.
“Quando o conhecimento deixa de ser uma construção coletiva e passa a ser moeda de troca, a ciência perde o seu caráter social e o país perde o seu futuro.”
Quando o colapso da ciência amadurece em silêncio
Diferente de rupturas abruptas, o colapso da ciência raramente surge como evento isolado. Ao contrário, ele amadurece em silêncio, infiltra-se nas engrenagens institucionais e, pouco a pouco, se consolida por processos cumulativos: escassez crônica de financiamento, burocratização improdutiva dos mecanismos de fomento, substituição do mérito técnico por alinhamentos ideológicos circunstanciais e, sobretudo, erosão progressiva dos valores que sustentam a prática científica. Assim, mais do que um ataque frontal, configura-se um desgaste contínuo, persistente e estrutural.
Nesse contexto, análises recentes da Academia Brasileira de Ciências e reportagens aprofundadas da Revista Pesquisa FAPESP mostram que a instabilidade orçamentária compromete diretamente ciclos longos de pesquisa. Como consequência direta, projetos estratégicos sofrem interrupções ou perdem viabilidade, especialmente em áreas críticas como segurança alimentar, mudanças climáticas e inovação tecnológica — temas amplamente debatidos no Blog Ambiental, como em alterações climáticas e segurança alimentar. O problema, portanto, não está apenas no volume de recursos investidos, mas, principalmente, na forma de distribuição desses recursos e no horizonte temporal que orienta as decisões públicas.
Além disso, essa lógica de curto prazo fragiliza profundamente a interdisciplinaridade. O que antes representava cooperação científica passa, gradualmente, a dar lugar a ilhas de sobrevivência institucional. Nesse ambiente, laboratórios competem por recursos cada vez mais escassos, pesquisadores disputam editais excessivamente direcionados e a crítica científica — elemento central do avanço do conhecimento — passa a representar ameaça ou insubordinação. Esse movimento, por sua vez, dialoga com o debate já explorado em marketing verde em crise, ao evidenciar como a perda de confiança e de autonomia técnica compromete sistemas inteiros de produção de conhecimento.

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A captura política da ciência e a erosão da autonomia
Outro elemento central do colapso, portanto, passa a residir na captura simbólica da ciência por narrativas políticas circunstanciais. Nesse processo, em vez de orientar decisões públicas com base em evidências, dados e consensos técnicos, a ciência, gradualmente, passa a ser instrumentalizada para validar posições prévias. Como resultado direto, o debate deixa de ser epistemológico e, progressivamente, assume contornos identitários, deslocando o foco da análise técnica para o embate simbólico.
Nesse cenário, por sua vez, as agendas de pesquisa deixam de responder a problemas estruturais — como crise hídrica, transição energética ou sistemas alimentares sustentáveis — e passam, cada vez mais, a obedecer aos humores de governos, aos ciclos eleitorais ou às pressões digitais efêmeras. Assim, não por acaso, o resultado imediato é a perda da autonomia científica, condição básica e inegociável para qualquer sistema de pesquisa robusto, coerente e consistente ao longo do tempo.
Como resultado desse processo, a ciência deixa de atuar como base estruturante de políticas públicas sustentáveis, inovação de longo prazo e estratégias de desenvolvimento, tornando-se, assim, vulnerável a ciclos políticos instáveis e a decisões desconectadas da realidade empírica. Quando isso acontece, perde-se não apenas eficiência institucional, mas também a própria capacidade de planejar o futuro como projeto coletivo — um alerta que se conecta diretamente à reflexão proposta em o futuro sustentável não será confortável.
Ética científica em fricção permanente
Em ambientes cada vez mais polarizados, os dilemas éticos, inevitavelmente, tendem a se intensificar. Nesse contexto ampliado, pesquisadores passam a enfrentar escolhas que, até então, pareciam impensáveis: adaptar projetos para caber em narrativas dominantes, silenciar críticas para preservar financiamento ou, em situações mais extremas, abandonar linhas de pesquisa consolidadas por absoluta falta de respaldo institucional.
Consequentemente, a integridade científica deixa de ser um valor protegido coletivamente e passa, pouco a pouco, a assumir a forma de uma escolha individual, frequentemente solitária. Ainda assim, esse processo não ocorre de maneira homogênea. Enquanto alguns se acomodam, outros negociam; enquanto alguns se retiram, poucos resistem abertamente. Dessa forma, a ética, nesse contexto, não colapsa de uma única vez — ao contrário, ela se desgasta gradualmente, por fricção contínua, silenciosa e persistente.
Por fim, essa discussão se conecta diretamente ao debate sobre comunicação e legitimidade da ciência, no qual se torna evidente que, sem credibilidade social, a ciência perde não apenas autoridade simbólica, mas, sobretudo, sua capacidade de mobilização coletiva e de influência efetiva sobre decisões públicas.

Blog Ambiental • Produzir conhecimento não garante ação quando a decisão pública gira em torno de si mesma.
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O fomento como instrumento de controle
O fomento científico, quando deixa de ser política de Estado, torna-se um dos elos mais frágeis do sistema. Editais excessivamente direcionados, critérios pouco transparentes e avaliações orientadas por conveniência política transformam o financiamento em mecanismo de controle, não de estímulo.
A pesquisa de risco — historicamente responsável pelas grandes descobertas — torna-se inviável. Projetos precisam prometer resultados imediatos, mensuráveis em planilhas de desempenho, ainda que a ciência avance justamente pela incerteza. Sem risco, não há inovação. Sem inovação, a ciência se reduz à manutenção burocrática de protocolos.
Instituições como o CNPq e análises internacionais da UNESCO já alertaram para os impactos de sistemas de fomento que penalizam a ousadia intelectual. A ciência, nesse modelo, sobrevive, mas deixa de avançar.
No centro do debate: o texto de Afonso Peche Filho*
O que resta após o colapso
O colapso raramente acontece em um único instante; ele amadurece, se infiltra silenciosamente nas estruturas e só se torna evidente quando o estrago já é irreversível. No cenário futurista aqui imaginado, o desmonte das instituições de pesquisa não se dá pela força das armas, mas pela lenta corrosão das suas bases: o financiamento rarefeito, a burocratização estéril, a manipulação política do mérito técnico e a erosão dos valores científicos. Quando o conhecimento deixa de ser uma construção coletiva e passa a ser moeda de troca, a ciência perde o seu caráter social e o país perde o seu futuro.
Neste contexto distópico, as universidades e institutos de pesquisa tornam-se fragmentos isolados, incapazes de dialogar ou somar esforços. A interdisciplinaridade, outrora celebrada, cede lugar ao individualismo defensivo. Os laboratórios competem entre si por migalhas de financiamento, enquanto projetos estratégicos são interrompidos por conveniência ideológica. A crítica deixa de ser elemento constitutivo do avanço científico e passa a ser tratada como insubordinação. A autonomia científica, sem apoio institucional, se dissolve.
As ideologias divergentes também desempenham papel decisivo nesse processo. A ciência, antes compreendida como prática racional de construção do conhecimento, é capturada por narrativas políticas de ocasião. Grupos disputam a definição do que é “verdadeiro” e do que é “útil”, não com base na consistência empírica ou teórica, mas no alinhamento com seus interesses. Assim, as agendas de pesquisa deixam de ser guiadas por problemas estratégicos de longo prazo, como a segurança hídrica, energética e alimentar, e passam a obedecer aos humores de governos, empresas ou movimentos digitais efêmeros.

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É nesse ambiente polarizado que os choques éticos se tornam inevitáveis. Pesquisadores precisam decidir entre aderir às diretrizes de uma ideologia ou resistir silenciosamente. A integridade científica, antes um valor universal, torna-se uma escolha moral arriscada. Há quem se acomode, há quem negocie, há quem se retire, e há os poucos que insistem em preservar a essência da pesquisa mesmo sem garantias. Essa heterogeneidade de respostas revela que a ética não colapsa de forma homogênea: ela se desmancha por fricção.
O fomento científico, por sua vez, revela-se o elo mais frágil. Em vez de política de Estado, torna-se política de governo, quando não política de facção. O fomento deixa de ser estímulo à criatividade científica e passa a ser um sistema de controle. Editais são moldados para consolidar agendas ideológicas, premiar alinhamentos e punir dissidências. O mérito técnico é substituído pelo mérito político. A pesquisa de risco, que sempre foi o motor das grandes descobertas, se torna inviável, pois não cabe em planilhas de performance imediata. Sem risco, não há avanço científico; sem avanço, a ciência se reduz à manutenção de protocolos.
Que sobra então após o colapso? A primeira resposta é melancólica: sobra a memória. Instituições, mesmo fragilizadas, deixam rastros. Teses, artigos, coleções, herbários, laboratórios e arquivos testemunham o esforço coletivo de um período em que o conhecimento ainda era entendido como bem público. A memória, entretanto, é insuficiente se ficar restrita ao passado; ela precisa ser capaz de inspirar reconstrução.
A segunda resposta é mais resiliente: sobra a comunidade científica enquanto conceito. A ciência nunca foi totalmente dependente de prédios, ministérios ou editais. Ela nasce do encontro entre pesquisadores, ideias, problemas e curiosidade. Mesmo reduzida à subversão intelectual, a ciência continua existindo enquanto forma de pensar. Ela espera brechas, reorganiza-se em pequenos núcleos, cria redes subterrâneas e, quando encontra condições mínimas, ressurgirá com vigor.
A terceira resposta é a que oferece sentido: sobra a necessidade. O colapso deixa evidente que a pesquisa não é luxo intelectual, mas instrumento de sobrevivência. Quando crises ecológicas, sanitárias e econômicas se intensificam, percebe-se tarde demais que o conhecimento especializado era mais valioso do que parecia. É essa constatação que abre caminho para a reconstrução. Após o colapso, resta relembrar a lição fundamental: a ciência só floresce quando é tratada como bem comum e quando a sociedade reconhece que o futuro depende dela.
* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas.
Fonte original: O que resta após o colapso, publicado na APQC — https://apqc.org.br/o-que-resta-apos-o-colapso/

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Então O que resta após o colapso?
A primeira resposta é melancólica: sobra a memória. Teses, artigos, bancos de dados, coleções científicas e arquivos institucionais permanecem como vestígios de um período em que o conhecimento era entendido como bem público. No entanto, memória sem ação vira museu.
A segunda resposta é mais resiliente: sobra a comunidade científica enquanto conceito. A ciência não depende exclusivamente de prédios ou ministérios. Ela sobrevive em redes, colaborações informais, grupos independentes e iniciativas que resistem à margem do sistema formal.
A terceira resposta é a mais potente: sobra a necessidade. Crises ecológicas, sanitárias e econômicas deixam claro que o conhecimento especializado não é luxo intelectual. Ele é instrumento de sobrevivência coletiva. Quando essa constatação se impõe, abre-se espaço para reconstrução.
Reconstrução, sustentabilidade e futuro comum
Reconstruir a ciência exige mais do que recompor orçamentos. Exige restabelecer confiança social, fortalecer a comunicação científica, proteger a autonomia institucional e reafirmar o conhecimento como bem comum. Esse movimento dialoga diretamente com a agenda de sustentabilidade, como já discutido em Como criar estratégias de marketing verde eficazes, ao mostrar que sem base científica não há transição sustentável consistente.
A ciência floresce quando sociedade, Estado e instituições compartilham a responsabilidade pelo futuro. Fora disso, qualquer avanço é frágil.
Quando o conhecimento deixa de ser escolha e volta a ser necessidade coletiva
O colapso científico não é apenas uma crise da academia; é uma crise civilizatória. Ele compromete a capacidade de enfrentar desafios complexos e de longo prazo. O que resta após o colapso — memória, comunidade e necessidade — pode ser suficiente para recomeçar, desde que haja vontade política, engajamento social e compromisso ético.
Tratar a ciência como bem comum não é retórica. É condição mínima para que o futuro exista.

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Perguntas frequentes sobre O que resta após o colapso?
1. O que caracteriza o colapso da ciência em um país?
De modo geral, o colapso científico não se manifesta de forma abrupta. Ao contrário, ele surge gradualmente por meio de um conjunto de fatores interligados. Entre eles, destacam-se, por exemplo, a perda contínua de financiamento, a fragilização da autonomia institucional, a erosão progressiva da credibilidade social e a redução da capacidade de produzir conhecimento estratégico. Assim, mais do que um evento isolado, trata-se, sobretudo, de um processo cumulativo, silencioso e persistente de desgaste estrutural.
2. A ciência consegue sobreviver sem apoio do Estado?
De forma limitada, sim. Em determinados contextos, a ciência pode resistir por meio de redes informais, colaborações independentes e iniciativas autônomas. Ainda assim, para se desenvolver plenamente e, consequentemente, gerar impacto sistêmico, ela depende de políticas públicas estáveis, escala institucional e previsibilidade de longo prazo. Sem esses elementos, portanto, a produção científica tende a permanecer fragmentada e vulnerável.
3. Qual é o impacto do colapso científico na sustentabilidade?
Quando a ciência perde centralidade, políticas ambientais tornam-se mais frágeis e, progressivamente, decisões passam a ser tomadas sem base empírica consistente. Como consequência direta, a transição sustentável perde solidez técnica, o que, por sua vez, amplia riscos sociais, econômicos e ambientais, além de comprometer respostas eficazes a crises complexas e interdependentes.
4. O fomento direcionado compromete a pesquisa científica?
Sim. Quando o financiamento privilegia alinhamentos políticos ou ideológicos em detrimento do mérito técnico, a inovação tende, naturalmente, a diminuir. Além disso, nesse cenário, a pesquisa de risco — historicamente responsável por grandes avanços científicos — passa a ser desestimulada. Como resultado, limita-se a capacidade de gerar descobertas relevantes e transformadoras no longo prazo.
5. É possível reconstruir a ciência após o colapso?
Sim, é possível, desde que haja, antes de tudo, uma mudança estrutural de abordagem. Para isso, a ciência precisa voltar a ser tratada como bem comum, com autonomia institucional, investimento estável e diálogo transparente com a sociedade. A partir desse reconhecimento, cria-se, então, o ambiente necessário para a reconstrução e para a retomada do desenvolvimento científico sustentável.

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